sábado, 10 de agosto de 2013

Lucas Santtana e a tal da bossa nova psicodélica



 Carolina Ito

Ele já fez shows cantando versões próprias de músicas do Tom Zé, dirigiu um musical, participou da trilha sonora dos filmes Deus é Brasileiro e Morte e Vida Severina, compôs para Céu e Marisa Monte, foi instrumentista de Chico Science, Caetano, Gil, toca guitarra, flauta, cavaquinho... Essas são informações encontradas facilmente em uma consulta rápida ao oráculo de Delfos do ciberespaço, mais conhecido como Wikipédia. Alguns links depois, você descobre que ele é sobrinho-primo de Tom Zé, filho do produtor do espetáculo que impulsionou a Tropicália e namorado da musa Camila Pitanga.

É, tá na hora de ouvir o som desse cara.

Lucas Santtana já tem cinco álbuns em sua carreira e, como de costume, comecei a ouvir os mais recentes. Sem Nostalgia (2009) e O deus que devasta mas também cura (2012) trouxeram boas surpresas e um som que realmente é difícil de encaixar em um ou dois gêneros. O New York Times considerou Santtana um dos melhores músicos brasileiros de rock, mas essa é uma classificação difícil.

A música eletrônica e até um estilo meio “lounge music” aparecem com força em seus trabalhos recentes. Felizmente, as músicas não se parecem com as que tocam em lojas de departamento sim, aquelas que tentam te transportar para outra dimensão, para o paraíso bonito e cheiroso do consumo. Geralmente, tudo o que é lounge me lembra dessa atmosfera artificial criada estrategicamente pelas Riachuelos da vida.

Dê um play e tire suas próprias conclusões. Se tiver vontade de sair comprando, procure a ajuda de um médico.
 

Mas ouvindo Lucas Santtana dá para reconhecer reggae, jazz, samba e uma porrada de ritmos que se misturam de maneira particular em cada faixa. Os gringos na Europa, onde os dois últimos discos dele foram lançados, o reconhecem como representante da "bossa nova psicodélica". Provavelmente, isso tem a ver com a presença marcante da bossa e da música eletrônica e, convenhamos, porque a bossa nova levou o Brasil a exportar arte, atingindo o "grau mais alto da capacidade humana", como diria o primo de Santtana, Tom Zé (chamado de tio pela diferença de idade).

Engraçado que os dois últimos discos dele tenham sido lançados na Europa e muitas de suas faixas sejam cantadas em inglês, sobretudo no disco Sem Nostalgia. É possível que lá ele seja mais famoso do que no Brasil. Além disso, o site oficial de Santtana – apoiado pela Secretaria de Cultura da Bahia – está todo em inglês, mais um ponto que me faz pensar sobre a influência da música brasileira internacionalmente e por que ela acontece.

Tá certo que, por enquanto, as rádios e emissoras de TV no Brasil mais importam celebridades norte-americanas do que os artistas brasileiros são exportados para outras partes do mundo. Mas e se fosse o contrário? E se "importassem" mais artistas como Lucas Santanna e outros tantos que se projetaram internacionalmente como Céu, Cansei de Ser Sexy, Curumin e o próprio Tom Zé? Divagações para um outro capítulo.

Aqui vai uma música do disco mais recente, O deus que devasta mas também cura, que traz participações de Céu, Do Amor, Kassin, Gui Amabis, Rica Amabis e Dengue.

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