domingo, 18 de agosto de 2013

Every day and every night

Carolina Rodrigues

Quando decidimos que o Especial do Mês seria sobre filmes relacionados à música, logo pensei em Marley (2012). Isso porque quando fiz o post sobre reggae no Brasil fiquei com a sensação de que não falei tanto do mais importante: do rei.

“Minha vida não é importante pra mim. A vida dos outros é. 
Minha vida é para o povo, quanto mais melhor”

Por mais que goste de Bob Marley e sempre tenha tido contato com sua música, não tive noção da sua real importância para o reggae e para a Jamaica até assistir ao filme. Da mesma maneira que não conhecia, até então, Bob Marley como ser humano, com sua história de vida, seus defeitos e anseios.

Algumas coisas todo mundo sabe: Bob Marley nasceu na Jamaica, conquistou o mundo com músicas como No Woman No Cry, Is This Love, dentre outras, e morreu jovem, bem jovem. Mas, acreditem, há muito mais. A começar pelo seu nome.

A origem
Sei que relacionamos o sobrenome Marley à figura de Bob, com seus dreads e sua voz rouca, sempre cantando músicas que, de fato, representam os negros. Porém, Robert Nesta Marley carregou durante toda a sua vida o fardo de ser mestiço; filho de Cedella Booker, negra da Jamaica, e Norval Marley, capitão branco da Inglaterra.  

Foi em Saint Ann, interior da Jamaica, que Bob nasceu, em 1945. Mas foi em Kingston, capital do país, que passou a maior parte de sua adolescência, na maior e mais miserável favela da cidade, Trenchtown.

Say I remember when we used to sit
In a government yard in Trenchtown
Observing the hypocrites
(No Woman No Cry)

O contato com a música existiu desde sempre e foi preciso muito tempo e muito esforço (com certeza) para se tornar o rei do reggae.

“Acredito que essa rejeição [por ser mestiço] fez com que ele 
atingisse o topo do mundo. [Ele pensava:] existe muita gente 
sofrendo, muita gente passando pelo que eu passei e tenho uma 
mensagem que pode trazer mudança e transformação.” 
(Amiga de Bob)

A música
“No reggae, você tem três batidas de quatro. E imagina a próxima batida, sente a próxima batida. Isso é o reggae. Sentimento. Batimento cardíaco.”

“As partes básicas da música eram a bateria e o baixo. A bateria é o batimento cardíaco e o baixo é a espinha dorsal.”

“O reggae é um conceito de todos os estilos musicais. Tem funk, rhythm and blues, soul e muito jazz quanto está pronto.” 
(Depoimentos de amigos do Bob)

O rastafári
Bob finalmente se encontrou (como negro) quando teve contato com o rastafári. Seguiu à risca o voto narizeu, deixou os dreadlocks crescerem e obedeceu às regras estabelecidas pela bíblia: como comer, viver e tratar outras pessoas.

“Os dreadlocks são minha identidade.” 
(Bob)

“Todo o sofrimento da Jamaica transforma você em um militante. Porque você precisa encontrar uma forma de sair do sistema. E nós vemos o rastafári como uma religião de libertação.”

“Nós interpretamos a bíblia de outro modo. A maioria dos lugares mencionados na bíblia fica na África. O Jardim do Éden fica na África. Os ensinamentos dos anciãos sempre nos dizem que devemos ver o homem negro como Deus para que tenhamos alguém com quem nos identificar.”

“Cristo prometeu à humanidade que voltaria em 2.000 anos e que quando Ele regressasse seria o Rei dos Reis. E podemos ver que é um homem: Haile Selassie I, imperador da Etiópia.”

“O imperador Haile é a reencarnação de Jesus Cristo, é o nosso rei, 

Rei Rasta.”
(Depoimentos de amigos de Bob)

A maconha
Segundo o documentário, Bob, assim como todos os rastas, fuma maconha de acordo com o que está escrito na bíblia. Para o rastafári, o Apocalipse diz para se consumir a erva.

“A erva era um alimento sacramental para nós. Temos motivos para consumi-la. Não fumamos só para ficar chapados. Ela deixa nosso humor sagrado, pacífico, feliz e inspirado”. 
(Mulher de Bob)

“Antes de escrever uma música, Bob fumava um baseado. Depois ia correr para despertar. Assim ficava mais inspirado e as letras saíam.”
(Amigo de Bob)

A política
PNP (Partido Nacional Popular) e PTJ (Partido dos Trabalhadores da Jamaica) eram partidos opostos na Jamaica. E Bob, como um líder para o país, podia influenciar bastante no voto da população. Mas jamais defendeu um partido ou outro. Essa sua neutralidade quase o matou, quando (provavelmente) um dos partidos tentou matá-lo em um atentado em sua casa em Kingston. A bala passou de raspão. E Bob foi para a Inglaterra.

A partir de então, a Jamaica começou a viver uma verdadeira guerra política. A saída para o problema foi procurar Bob, tanto um, quanto outro partido. PNP e PTJ foram até Londres pedir para que o rei retornasse à Jamaica e fizesse um show, um “concerto da paz”. E sim, ele fez o show e pediu para que os dois líderes dos partidos opostos subissem ao palco e dessem as mãos.

"We Jah people can make it work
Come together and make it work
We can make it work"
(Work) 
E muito mais
Eu poderia, mesmo, depois de assistir ao filme, dizer muito mais sobre Bob Marley. Sobre seu amor pelo futebol, sobre os Wailers, sobre os onze filhos que teve com sete mulheres, sobre a fase difícil que viveu ao final de sua vida, quando morreu de câncer aos 36 anos. Mas, se estamos aqui pela música, que assim seja...


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