quarta-feira, 17 de julho de 2013

O que eu esperava da Sandy

Gabriela Passy

Numa daqueles “limpas” que a gente faz nos nossos armários, tão entulhados de coisas velhas que as gavetas teimam e enroscam para abrir, descobri um caderninho que eu tinha aos sete anos. Um caderno inútil, mesmo, que não tinha motivo nenhum para ser guardado. Exceto um: uma anotação no verso da capa, escrita naquela letra cursiva desajeitada própria dos recém-alfabetizados.

Show do Sandy & Junior
21/10/2.000
Estado Barão da Serra Negra

Eu me lembro de bem poucas coisas da minha infância, mas essa é uma cena que tenho gravada aqui no meio do cocuruto como se tivesse acontecido ontem. Eu estava sentada no chão da sala quando o anúncio passou na TV: Sandy & Junior iriam a Piracicaba, onde eu morava na época. Mais do que rápido anotei o que ouvi – tão rápido que me lembro de ter ficado orgulhosa de mim mesma - e fui correndo mostrar para a minha mãe, que riu e me corrigiu: "Ga, não é 'estado', é 'estádio'".

Enfim, minha mãe me levou ao show, tirou uma foto minha aos prantos por ver pessoalmente a Sandy a mais ou menos uns cem metros de distância. Tão pequena que cabia em um espaço de uns quatro centímetros que eu colocasse entre o polegar e o indicador.

Mas ela estava lá, e era a maior referência do que eu queria ser um dia, quando crescesse. Eu cresci, Sandy e Junior se separaram, e essa fase de fã incondicional, como tudo que um dia faz parte de gente, foi aos poucos sendo esquecida.

O engraçado é que foi tão esquecida que eu nem se quer dei bola quando a Sandy lançou o primeiro disco solo, em 2010. Talvez tenha ouvido uma música ou outra, mas não me interessei ao ponto de ir atrás do CD.

A cara de bonita que me olhou de dentro da loja de CDs
E, de repente, na mesma semana me peguei cantando Imortal no chuveiro (um espetáculo bem dispensável) e parada observando a cara de linda da Sandy na capa do seu recém-lançado álbum, Sim, na vitrine de uma loja de CDs. E me bateu uma vontade de ouvir.

O que eu esperava da Sandy, agora que já não tinha mais os meus sete anos e todos aqueles litros e quilos e metros de admiração por ela? Foi meio sem esperar nada que soltei o play no Soundcloud e...Senti um vazio, aquela mesma sensação que tenho quando coloco Toddy de menos no meu leite. Não que eu tenha achado ruim. Inclusive gostei muito, muito mesmo dos arranjos, das melodias, do uso do piano, do violino e da percussão; os agudos da Sandy estão belíssimos, mais maduros – apesar de um pouco enjoativos. Acho que, no fundo, só esperava que ela continuasse sendo uma referência para mim, me traduzindo como ela costumava fazer há muitos anos atrás.

Esperava que ela estivesse mais tipo “eu cresci, agora sou mulher”. Esperava que ela se mostrasse menos romântica, que as músicas não fossem tão amorzinho, que ela tivesse parado de pintar a perfeição idealizada das pessoas e dos relacionamentos. É claro que se eu ainda tivesse meus catorze anos vários versos dela seriam eleitos para subnick do meu MSN. Elas me traduziriam...Mas chegaram um pouco atrasadas.

Listinha de músicas que me surpreenderam: Aquela dos 30, Ponto Final, Olhos Meus, Saudade.

E aqui vai o álbum completo - incluindo alguns vídeos - pra quem quiser escutar: 

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