domingo, 16 de junho de 2013

De onde vem o pop

Amanda Lima
Carolina Ito

Hoje, basta ligar o rádio que a música “pop” lidera nas emissoras mais ouvidas, com hits importados diretamente da fábrica de ídolos norte americana. De onde vem esse estilo musical que criou uma espécie de linguagem universal para agradar jovens de várias partes do mundo?

O jornalista e sociólogo francês, Fréderic Martel, lançou uma hipótese para responder a essa pergunta e ela tem tudo a ver com a música negra - não é pelo capricho do acaso que hoje são cultuadas divas como Beyoncé e Rihanna e, até as mais branquelas, como Christina Aguilera e Joss Stone, têm a voz semelhante à de cantoras negras dos primórdios do jazz e do gospel.

Martel visitou 30 países em 5 anos para traçar um panorama da indústria criativa e dos novos arranjos que dominam a cena cultural nos lugares por onde passou. O resultado da pesquisa e das mais de 1200 entrevistas é o livro reportagem “Mainstream”, que dedica um capítulo só para falar da origem e evolução da pop music.

Berry Gordy, o precursor da música pop

A história começa no centro de Detroit, que hoje possui uma população de 83% de negros vivendo num cenário de segregação social, violência, pobreza e poucas opções culturais. Na década de 50, o ritmo mais popular entre os jovens de Detroit era o rhythm and blues (ou simplesmente R&B), que sempre foi relacionado à raça negra, em seções como Race Music Chart, no caso da classificação da Billboard.

Nesse contexto, Berry Gordy, um homem negro que queria abrir uma loja de discos, percebe que o R&B possui um grande potencial. “A chave é a questão racial”, pontua Martel em seu livro. “Berry Gordy fica horrorizado com o fato de a música negra ser produzida por brancos e marginalizada num hit-parade específico”. No fim, Gordy não abre uma loja de discos, mas cria a produtora independente Motown, que lançou grandes sucessos na época.

Fachada da lendária Motown (Foto: britannica.com)
A ideia da Motown Records é criar uma música crossover, em outras palavras, algo que possa romper com as fronteiras musicais e misturar vários gêneros. E o objetivo ideológico da produtora de Gordy é “entrar na cultura americana pela porta da frente, e não pela porta dos fundos, como os músicos negros são às vezes obrigados a fazer no fim da década de 1950”.

A Motown virou uma fábrica de sucessos que se tornaram referência também para um público branco, entrando para o Top 10 da Billboard na categoria “Pop”. Lançou artistas que, muitas vezes, vinham de corais de música gospel, transformando-os em ídolos do mainstream. Stevie Wonder, The Jackson Five, Marvin Gaye, Diana Ross e The Supremes são alguns artistas que passaram pela Motown Records e depois foram contratados por grandes gravadoras.

Martel lembra que a música pop não é um gênero musical estático, pois está sempre em processo de invenção e reinvenção. Mas a ideia do crossing-over musical de Berry Gordy (conceito que adaptou da genética de maneira inovadora) ajudou a criar uma música de linguagem popular, que entra facilmente nas paradas de sucesso e, obviamente, rende muitos lucros para a indústria fonográfica.

Na ponta da língua

Submetida às regras de grandes gravadoras, a música pop privilegia a emoção em vez do estilo, e se preocupa mais com a estrutura que com a inventividade musical da canção. É o que pontua Martel a respeito da Motown e que, em diferentes medidas, continua a se observar. A linguagem de fácil compreensão do pop se mostra uma decisiva estratégia de marketing, e não uma coincidência que faz de um espectro musical um fenômeno sem precedentes.

Não se trata aqui de romper definitivamente a linha entre arte e entretenimento (tomando por base pontos de vista estruturais), mesmo porque muitos artistas que se pretendiam contraculturais acabaram inseridos na cultura de massa. A questão é que a pop music prende e penetra os ouvidos de quem, seja da maneira que for, consome música.

Os versos das musas do pop norte-americano estão inevitavelmente registrados na memória de quem nega de pés juntos conhecê-los. Apesar de todo o caráter mercadológico e de toda a crítica envolta na indústria fonográfica, talvez seja esse o ponto chave da comunhão que só o pop proporciona. A exportação do gênero e sua difusão sem tamanho é o que faz dele abrangente em termos de público, mesmo quando este é involuntário.


Para coroar a nossa imersão na pop music, essa é uma seleção de canções que tiveram o destino pretendido: a ponta de nossas línguas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário