quarta-feira, 17 de abril de 2013

Huckleberry friend

Gabriela Passy

- Você quer aquela que a Lia tocou, certo? – os olhos azuis dela me olharam brilhando. O sorriso de sempre estava nos lábios, um dos poucos que até hoje me conseguiram transmitir naturalidade ao exibir praticamente todos os dentes.

- Não, Ce... A que a Helena tocou, sabe? – eu vi o brilho dos olhos dela sumir. O sorriso murchou, e a sobra de riso amarelado me constrangeu levemente.

- Jura? Acho aquela tão triste. Pensei que você nunca ia querer tocar.

Minha cabeça de nove anos não foi capaz de compreender o porquê da objeção da minha professora de piano em que eu tocasse uma das músicas mais bonitas que já conheci. Minha cabeça de vinte anos ainda não entende muito bem.

Toquei com gosto e cantei desafinada. Desenhei uma lua e um rio na capa da partitura de duas folhas. Talvez um casal de namorados sentados num banco e algumas estrelas. Era esse o tipo de coisa que eu desenhava naquela época; hoje (ar)risco somente o contorno da bailarina de linhas absurdas que me persegue a ponta da lapiseira.

Aos nove anos, eu ainda não tinha idéia de quais livros, filmes ou canções seriam os meus favoritos. Não tinha como saber que um dos meus livros preferidos daria origem a um dos meus filmes preferidos. Não tinha como saber que aquela canção, iniciada pelo dó-sol-mi-sol grave marcante da versão facilitada que chegara até mim, era tema do tal filme. Era bem capaz de não saber nem ao menos da existência dele, mesmo já tendo visto o rosto da atriz principal nos pôsteres em preto e branco que eu revirava sentada no chão sujo da livraria do shopping.

(Ah, a propósito, a canção é Moon River, do Henry Mancini, o filme é Breakfast at Tiffany’s e o livro homônimo é do mestre Truman Capote)

Audrey Hepburn de toalha na cabeça, um violão e uma janela foram o suficiente para me tocar como poucas outras cenas, e com certeza ajudaram o Breakfast a subir a escada do meu ranking de filmes favoritos de dois em dois degraus. Tem coisas na vida que simplesmente nos encantam, e essa foi uma delas.



Há algumas horas fui apresentada a uma outra versão de Moon River que caiu surpreendentemente no meu gosto. Apesar daquele receio típico de quando alguém quer mexer em algo já suficientemente bom, descobri que Vincent Gallo, John Frusciante, PJ Harvey e Jim O’Rourke foram capazes de reavivar com pinceladas de novidade uma antiga e aparentemente eterna paixão.

Moon River by Vincent Gallo, John Frusciante, PJ Harvey & Jim O'Rourke on Grooveshark

Two drifters off to see the world
There's such a lot of world to see
We're after the same rainbow's end
Waiting 'round the bend
My huckleberry friend 
Moon river and me

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