terça-feira, 30 de abril de 2013

Caixinha de desgostos


Carolina Baldin Meira

Odeio quando resolvo apostar minha única bola de sorvete em um sabor ruim. Sabe como é? Você está com aquela vontade danada de ir à sorveteria. Entra na fila, escolhe entre mil opções e pede com toda confiança do mundo um tal de Jamaicano. “É chocolate, não tem como decepcionar”. Mas tinha: alguém achou que seria legal colocar uvas passas no meio da massa. Sério mesmo, gente? Dá licença, já basta cutucar alguns pratos nas ceias de Natal e Ano Novo, mas colocar sorvete na história é apelação.

Crítica semelhante se aplica ao universo musical: shows que decepcionam. O especial deste mês já trouxe desilusões a respeito de um álbum e de uma banda. Hoje é a minha vez encerrá-lo, abrindo a caixinha de desgostos que todos nós carregamos na vida (mas nem sempre saímos falando sobre ela por aí).

A última aquisição da minha caixa foi há um mês – o show dos irlandeses do Two Door Cinema Club em São Paulo, no segundo dia do festival Lollapalooza. Levantar os defeitos daquilo que gostamos é mais trabalhoso, é incômodo, exige desapego. Chato, mas necessário pra que a gente veja que a vida é assim mesmo: o sorvete de chocolate nem sempre é doce, a banda que você esperou por anos pode não te impressionar.


Ok, eu não vou ser chata de dizer que foi um show péssimo. Mas não foi nem de longe perto o que eu esperava: acho que o erro começou com o lugar. Ficar próximo ao palco é sofrido. Porque com certeza alguém que tem dois metros de altura vai ficar na sua frente. E mais certeza ainda de que alguém atrás, mais baixo do que você (por mais raro que isso seja, no meu caso), vai ficar incomodado e tentar a todo custo se aproximar da banda – nem que pra isso tal pessoa te empurre ou passe por cima de tudo.

Foto: Carolina Baldin Meira

Sleep Alone foi a faixa que abriu o show. Morna, ela serve para mostrar como o Two Door ficou bem mais melódico e menos dançante no segundo álbum, Beacon (2012). Diria até menos inovador. Antes mesmo de dar um “olá” ao público, o trio emendou a (animadíssima, preciso admitir) Undercover Martyn, que é do meu preferido Tourist History (2010). Em seguida, os fãs finalmente ouviram as boas vindas do vocalista Alex Trimble, de personalidade evidentemente mais fechada do que o baixista Kevin Baird. Os dois estavam acompanhados do guitarrista Sam Halliday e do baterista de apoio Ben Thompson.


O setlist tentou mesclar os dois álbuns de maneira equilibrada, ainda que eu tenha sentido falta de músicas como Come Back Home, do primeiro disco. Alguns destaques foram I Can Talk, Something Good Can Work e Next Year. A apresentação teve um público super empolgado, que cantava em coro mas não recebia toda essa atenção de volta por parte da banda. Naquela tarde, nada me fez mudar a ideia de que os irlandeses eram blasé. Hoje reflito se o show não foi prejudicado pelo cansaço/timidez do quarteto – que havia tocado na noite anterior no Rio de Janeiro – ou pelo som desregulado do palco Cidade Jardim. Apesar do belíssimo encerramento com What You Know, em pleno pôr-do-sol, não posso evitar a comparação: expectativas muito altas sempre terminam em uvas passas.


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