quinta-feira, 25 de abril de 2013

A (des)graça do Auto-Tune

Vanessa Souza

Todo mundo (ou quase) se lembra do rapper T-Pain, certo? Só deus sabe onde ele está agora, mas, nos últimos anos da primeira década do século XXI, ele estava nos apresentando o que foi considerado pela Times Magazine uma das piores invenções do mundo: o Auto-Tune.

A função primordial do programa, ao menos ao ser criado, era dar uma photoshopada na voz humana e economizar as horas de gravação gastas por alguns cantores até que consigam atingir todas as notas perfeitamente. Ou seja, um corretor de afinação. Se isso é bom ou não, se os professores de canto vão perder sua função e seus empregos, se não dá mais para saber quem tem talento na música pop... tudo isso pode ser discutido em outro lugar. Aqui o foco é outro.

Aqui o foco é como o T-Pain reciclou o 'efeito Cher'. Eu explico: em 1998, dois anos depois de o Auto-Tune ser inventado por um engenheiro que trabalhava com dados sísmicos, a cantora pop levou ao mundo fonográfico uma música com vocais soando como um robô. Era o Auto-Tune indo além de corrigir imperfeições e sendo usado como um efeito vocal.


O T-Pain, espertinho, percebeu que, quase dez anos depois, ninguém mais estava usando esse recurso já fazia um tempo. Em 2005, ele lançou seu primeiro álbum, Rappa Ternt Saga, recheado de Auto-Tune. Mas foi em 2007, com seu segundo disco, Epiphany, que ele chegou ao topo das paradas americanas. Buy U A Drank tocou em todos os lugares, o rapper fez colaborações com todos os seres vivos do planeta – uma delas, com o Kanye West, rendeu a eles um Grammy de Melhor Rap – e a praga do Auto-Tune se instalou de vez no hip-hop e no pop.

Mas voltando ao Kanye West. Em 2008, depois da morte de sua mãe e um triste término de relacionamento, o rapper se afundou nas composições de 808s & Heartbreak, um álbum que não se limitou a ter só rap. E, como Kanye West não é cantor, o Auto-Tune deu uma ajudinha para que ele conseguisse seguir a maioria das melodias que compôs. Mas um sinal de que a intenção não era transformar Kanye num gênio da afinação são os momentos em que o tom cantado por ele e mantido na edição final não está 100% correto. Ou seja, a idéia era usar a 'vozinha de robô' como parte da estética do álbum. Junto do acompanhamento introspectivo, os efeitos vocais refletem a dor e a confusão do Kanye, que também estava passando por uma crise existencial causada por toda a fama e o dinheiro em oposição ao vazio que ele estava sentindo. Um uso válido do programinha controverso ou não?


Como toda moda repentina se esvai, o Auto-Tune começou a voltar à sua função principal conforme os anos foram passando. Em 2009, Jay-Z declarou a morte do programa em uma canção produzida pelo próprio Kanye West (vai entender), e ele não estava tão errado: a partir de 2010 é difícil achar uma música com esse efeito tão evidente, mesmo nas participações especiais do precursor da idéia, o T-Pain. Até dá para encontrar o recurso usado em 2012 pelo cantor Frank Ocean, no minuto final da longa Pyramids, aplicado a um 'who-oo-ooa' discreto.


P.S.: Quando eu disse que 'a praga do Auto-Tune se instalou' em todo lugar, eu meio que me referia a este comercial veiculado lá pelas idas de 2008, 2009, pela rede de fast-food Wendy's:

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