segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Teresa Cristina, imperatriz do samba



Carolina Ito

“Me conhecem como Teresa Cristina, cantora, portelense, compositora e, pra enriquecer a rima, vascaína”

Responsável pela retomada do circuito boêmio no bairro da Lapa, Teresa Cristina é uma das cantoras de samba mais influentes do Rio de Janeiro. A filha de dona Hilda e seu Lula, criada com mais seis irmãos, nunca sonhou em ser cantora e as apresentações musicais não ultrapassavam o portão de sua casa na Vila da Penha.

A carreira de Teresa Cristina começa a adquirir os primeiros contornos no dia fatídico em que redescobre num canto, meio empoeirado, o disco do sambista Candeia que seu pai ouvia quase todos os dias quando ela era criança. Isso foi um divisor de águas, algo descrito por ela como “acdc”, um trocadilho que faz referência ao período a. C. (antes de Candeia) e d. C. (depois de Candeia). E isso não tem só a ver com música.

a. C.

A menina desinibida que imitava Gal Costa, Clara Nunes e Alcione era diferente da menina que sentia vergonha por ser negra. Ela não entendia porque as pessoas davam tanto valor para a cor da pele e porque a tratavam mal no colégio. Além disso, não gostava quando seu pai ouvia sambas que contavam histórias do povo negro e de crioulas que ela não reconhecia em ninguém, nem em si mesma.

“Quando ouvi o Candeia falar da raça negra, com toda graça e louvor que ela merece, primeiro eu falei: esse cara é louco, como ele fala essas coisas, de que universo ele veio?”

Na adolescência, acabou se afastando do samba e aos 16 anos se considerava metaleira. Depois disso, Teresa Cristina foi manicure, vendedora, auxiliar de escritório e trabalhou no DETRAN carioca. Apesar de tantas profissões diferentes, o interesse pela música foi tomando forma, crescendo pelas beiradas. Até que...

d. C.

“Quando o DETRAN me mandou embora que eu falei bom, agora vai ser só música”

Antes disso, aos 18, Teresa já tinha feito as pazes com o samba e com a MPB e redescoberto o disco de Candeia. Mais tarde, ela entendeu porque o sambista da Portela dizia todas aquelas coisas.

“Ele trouxe pra mim uma vaidade, um amor próprio, que quando eu era criança eu não enxergava”

A cantora se aproximou da Velha Guarda portelense e começou a ensaiar um show só com músicas de Candeia. A homenagem, por fim, não aconteceu, mas ela foi convidada a cantar no Bar Semente que é um dos mais concorridos da Lapa. O sucesso das apresentações contribuiu para revigorar o centro boêmio do Rio de Janeiro no fim dos anos 90.

Teresa Cristina, aos 44, está matriculada no curso de Letras da UERJ (que não consegue concluir por conta da agenda de shows) e mora em Copacabana. Já lançou discos pelo selo Biscoito Fino e, recentemente, foi contratada pela major EMI Music.

O disco que impulsionou a carreira da sambista foi A música de Paulinho da Viola, de 2002, aclamado pela crítica e pelo público. Hoje, tanto as músicas que interpreta quanto as que compôs são entoadas em coro nas casas de shows do Rio, sobretudo as que pertencem aos álbuns Delicada (2007) e Melhor assim (2010). Este último foi gravado em dvd e conta com as participações de Caetano Veloso, Lenine, Arlindo Cruz e Marisa Monte.


O trabalho mais recente de Teresa Cristina é o disco em que interpreta músicas de Roberto Carlos junto com a banda de rock Os Outros, algo bem diferente da linha samba e MPB. Mais uma vez, memórias de infância são revividas, já que ela escolheu canções antigas do rei que sua mãe costumava cantar pela casa.



- As falas destacadas no texto foram retiradas do programa Samba na Gamboa, exibido pela TV Brasil.

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