segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O dia em que a música morreu


Felipe Altarugio*

O que motiva ou inspira um compositor a escrever uma canção? Algumas vezes, é fácil perceber a mensagem que é carregada por uma música. Mas nem sempre é assim.

No dia 3 de fevereiro de 1959, um acidente aéreo tirou as vidas dos músicos Buddy Holly, Ritchie Valens e J. P. "The Big Bopper" Richardson, além do piloto da pequena aeronave. O evento serviu como pontapé inicial para que Don McLean compusesse seu maior sucesso: American Pie, lançada em 1971 em um álbum com o mesmo nome, que foi dedicado pelo cantor a Buddy Holly, vítima do incidente que, desde então, ficou conhecido comoo dia em que a música morreu”.

Contudo, as referências ao acidente só são claras na primeira estrofe. O mês em que o avião caiu e o fato de que McLean ficou sabendo do que aconteceu entregando jornais em sua cidade explicam os primeiros versos:

Capa de "American Pie"
(Crédito: Site Oficial de Don McLean)
 "February made me shiver
With every paper I’d deliver
Bad news on the doorstep;
I couldn't take one more step.

I can't remember if I cried
When I read about his widowed bride,
But something touched me deep inside
The day the music died."



As estrofes restantes e o refrão são, até hoje, alvo de especulação. Certa vez, ao ser perguntado sobre o significado de American Pie, Don McLean foi breve: "significa que eu nunca mais vou ter que trabalhar".

Obviamente, a resposta não foi suficiente para os fãs. É possível encontrar inúmeros artigos com interpretações de diversas pessoas sobre a enigmática letra, algumas muito bem elaboradas. (Pra quem gosta desse tipo de coisa, o site Understanding American Pie traz uma análise bastante detalhada).

Para a maioria dos "especialistas", está claro que American Pie também constitui, além de um tributo a Buddy Holly e à música como um todo, um apanhado histórico do momento pelo qual passava a sociedade americana. Muitos afirmam que "o dia em que a música morreu" marca também a "morte" de uma geração: a geração da gloriosa década de 1950 nos Estados Unidos.

Algumas referências a outros artistas e acontecimentos da época (até mesmo Lênin e Marx são citados na música) também são destacadas na letra de Don McLean, como na passagem:

"When the jester sang for the King and Queen,
In a coat he borrowed from James Dean"

Além da explícita referência a James Dean, há quem diga que o "bobo da corte" (jester) citado seja Bob Dylan, que se apresentou à rainha Elizabeth II e que, na capa de seu álbum The Freewheelin’ Bob Dylan, aparecia vestindo um casaco similar ao consagrado figurino que Dean usou em Rebel without a case. Aí fica pelo fértil imaginário dos fãs.

Em seu site oficial, o cantor deixa mais algumas pistas. Em uma seção exclusivamente dedicada a American Pie, McLean afirma que a música "não é uma canção de nostalgia. American Pie muda conforme os Estados Unidos mudam". O compositor ainda acrescenta um aspecto pessoal à letra, ao dizer que "a transição da inocência da infância para a realidade da vida adulta começou com as mortes de Buddy Holly e de seu pai, e culminou com o assassinato de Kennedy".

Em outra oportunidade, Don McLean disse: "descobri há muito tempo que compositores devem se expressar e seguir em frente, mantendo um silêncio respeitoso". Provavelmente, McLean estava certo. Afinal, o significado de uma obra de arte não varia de pessoa pra pessoa?

Chamam de elegia a poesia um pouco mais triste, composta para um lamento de morte. Mas American Pie é mais que uma simples elegia a Buddy Holly. É uma elegia a uma geração, a uma sociedade. Contudo, ao mesmo tempo em que representa o fim de uma era, marca o início de um novo tempo.

Então, se você está passando por uma crise de meia-idade, ou simplesmente pela "síndrome dos 20 anos" (qualquer semelhança com o autor desse texto é mera coincidência), por que não ouvir a bela e misteriosa canção de Don McLean? É longa, sim, mas vale a pena, principalmente se você for acompanhando a letra. Alguém mais arrisca alguma interpretação?

O que é certo é que American Pie, líder dos top hits americanos por quatro semanas em 1972, consagrou-se como um dos maiores singles da história do folk rock e marcou para sempre o dia 3 de fevereiro de 1959 como o dia em que a música morreu.



*Felipe Altarugio é estudante de jornalismo da Unesp de Bauru e contribuiu com esse post para o Play This Beat.

3 comentários:

  1. Ainda do Mclean vale a pena conferir Starry Starry Night e Castles in the Sky!

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  2. Muito bom o tempo, sem dúvida uma ótima pedida para as crises de idade :p - não é o meu caso, maaaaaaas enfim! :p

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