quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Fique pro café

Amanda Lima

(Foto: Dani Gurgel/dapavirada.com)

Para bem representar a música brasileira, talvez seja preciso menos do que timbres carimbados, percussionistas e uma batida um tanto exausta de se repetir. É assim, com a simplicidade de voz e violão, que o violonista, compositor e intérprete Demetrius Lulo e Paula Mirhan, cantora e atriz, arranjam o Brasil musical contemporâneo em oito faixas, no disco cujo título exprime a sensação de ouvi-lo: uma visita descompromissada para o Café da Tarde.

Café da Tarde (2012)
O álbum foi idealizado em 2011, graças a um convite para participar do Festival de Música de Saint Martin de Velamas, na França. O repertório, composto por canções de compositores da atual cena paulistana, vai de encontro aos estereótipos musicais geralmente exportados para a Europa. A recepção do show foi tão notável que a estadia de Paula e Demetrius se estendeu por uma turnê de 24 shows. No ano seguinte, o Café da Tarde chegou a São Paulo e ganhou cara nova com roteiro e direção de Vinicius Calderoni e iluminação e cenografia de Wagner Antônio.

Ambos vencedores de importantes festivais de música brasileira, os parceiros do projeto tiveram suas trajetórias musicais acompanhadas também pelo teatro. Paula, formada em Artes Cênicas pela Unicamp, é integrante da companhia Les Commediens Tropicales há seis anos. E Demetrius, como cantor e violonista, participou de peças teatrais desde o início de sua carreira profissional. Do encontro aparentemente inevitável entre os dois, surge o espetáculo Café da Tarde, que explora a capacidade teatral das canções. A consequência é um humor aconchegante, como em Clinch, canção de Danilo Moraes e Ricardo Teté.


A escassez proposital de instrumentos abre uma gama incontável de recursos que criam um novo panorama musical. Contracantos, trombones vocais, melodias bem construídas e arranjos ricos amarram todas as canções do disco. O resultado é um som que chega manso ao ouvido e oscila entre a cadência doce de Pra lá, de Dante Ozzetti e Luiz Tatit, o desabafo de Relativismo, de Danilo Moraes e Ricardo Teté, e a força de Bate Pilão, de Rafa Barreto. Em Só o que falta, de Caê Rolfsen e Fábio Barros, o canto surge em meio ao amor diluído pelas ruas da capital paulistana.

O processo de criação dos arranjos sem dúvida faz com que se transpareça no disco o que é elemento visual no palco. Passagens bem-humoradas são traduzidas em voz em Pas de Xurumelas, de Demetrius Lulo e Rene Nunes, e o sossego de um fim de tarde regado a café e biscoitos é pano de fundo na faixa que nomeia o disco, composta por Giana Viscardi e Michi Ruzitschka. Com que pé, de Tó Brandileone e Célso Viáfora, e Se essa rua, de Demetrius Lulo e Wagner Barbosa, completam o espetáculo sonoro.

E, se masterizações e recursos cenográficos são acessórios valiosos, note que Demetrius Lulo e Paula Mirhan são capazes de torná-los meros figurantes. Para tirar a prova, eis o vídeo de ensaio da canção Biscate, de Chico Buarque, com suficientes dois bancos e um violão.


O álbum pode ser ouvido na íntegra no site do Café da Tarde e outras informações estão na página do Facebook.

"E não me venha interpretando o meu poema
Nem propondo teorema 
Pro meu samba se perder
As minhas crenças são verdade, não insista
Não acredito em deus nem amor à primeira vista
Pero que los hay, los hay"
(Relativismo - Danilo Moraes/Ricardo Teté)

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