domingo, 23 de dezembro de 2012

Viajei no disco do Mutantes


Gabriela Passy

Este texto é indicado a maiores de 12 anos. Contém: alusão/apologia às drogas.

 01:21
E eu pensei que fosse tarde
Só agora eu saquei a verdade
Viajei no disco do Mutantes

01:23
Uma dor no fundo dos olhos me aborrece profundamente. Não quero dormir, e nem seria bom que eu quisesse; esse desconforto me faria louco, rodando na cama por horas. Há saídas melhores para esse momento, pensei, e não havia saída melhor para esse momento do que encher a cara, sozinho, olhando as paredes, os tijolos, os besouros... O gelo derretendo no copo.

02:07
Lembrei de algumas coisas que eu costumava fazer; algo em especial que há muito não me pertencia mais, uma coisa que costumava me levar pra longe, pra onde nada me aborrecia, tudo era bonito, um pouco desfocado e rolava em stop motion. A droga correndo pelos meus neurônios, pelo meu sangue, minha pele, por todo eu, me invadindo de um modo que paixão nenhuma no mundo podia fazer igual. Os anos me fizeram esquecer de tudo isso. Meu Deus, quando foi que eu fiquei assim tão velho, tão chato, tão gasto? Eu pensei que fosse tarde, só agora saquei a verdade. Viajei no disco do Mutantes. E por que não? Só mais uma última vez.

02:16
E não é que eu tinha esquecido como esse LP é do caralho?! Eu estava lá, eu estive lá. Eu vi esses caras chaparem loucamente de ácido, comporem e gravarem essa doidera. Por que então isso não me pertencia mais? Se eu estava lá e estive lá... Eu estou lá. 73 é o meu tempo e não foi há tanto tempo assim. Eu vejo as cores nesse som. Garçom, mais whisky pra mim, por favor.

02:43
Ouvir tudo isso foi como voltar àquela época, à minha época. Minhas namoradas, meus amigos, minhas festas, minhas drogas e bebidas baratas. Tudo que me pertence rodando em espiral dentro da minha cabeça junto com um solo de guitarra. A bad chega e tudo isso termina e vai embora numa descarga elétrica, e só resta o barulho do mar afogando as minhas velhas lembranças já carcomidas pelas traças. Afinal, chapar sozinho nunca foi uma grande ideia. 

Nota: O A e o Z é um disco d’Os Mutantes, composto e gravado em 1973, todo sob o efeito do LSD. O LP, conhecido por marcar a entrada do grupo no rock progressivo, foi recusado pela Polydor e posteriormente lançado em forma de CD pela PolyGram, em 1992.

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