terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Magical Mystery Tour

Carolina Baldin Meira

Antigamente um tabu, hoje em dia já é bem mais escancarada a relação de muitos famosos com as drogas, principalmente no meio artístico (pintores, escritores, atores e músicos). E é dessa última categoria que vamos falar no especial “Alucinógeno Musical”. Saindo da esfera negativa de “bad trips” e overdoses, sem apologias ou preconceitos, uma coisa é fato: grande parte da criação musical, de bandas nacionais e internacionais, é fruto de experiências lisérgicas. Bem vindo ao backstage dessa união genial e polêmica entre música e alucinógenos.

Noite de jazz tradicional e rock, no inverno de 1962. Duas bandas se apresentavam em Southport, Inglaterra. No camarim, o baterista de uma delas oferece um baseado ao restante. Quatro jovens de Liverpool resolvem experimentar: “Todos nós aprendemos a dançar o twist naquela noite”, lembra o guitarrista. A revelação de George Harrison se encontra na autobiografia The Beatles Anthology (2000). Naquela época, Harrison tocava com Paul McCartney, John Lennon e Pete Best. Dois anos mais tarde, no verão de 64, o grupo já estava em sua formação original, após a saída de Pete, agora com Ringo Starr na bateria. E foi em uma suíte do Hotel Delmonico, em Nova York, que um encontro entraria para a história da música: os Beatles conheceram pessoalmente Bob Dylan e os efeitos sociais e psicológicos da maconha.

Magical Mystery Tour e gravação do filme homônimo, em 67
A partir daí, o grupo nunca mais foi o mesmo. Das inocentes composições I Want to Hold Your Hand ou She Loves You para o já mais sólido álbum Rubber Soul, de 1965, são perceptíveis as mudanças de comportamento. Na música Norwegian Wood (This Bird Has Flown), por exemplo, John Lennon fala sobre um encontro frustrado com uma garota excêntrica, que termina com ele sozinho e uma “madeira norueguesa” (alusão à maconha ou haxixe). Neste mesmo álbum, Nowhere Man prega a liberdade de almas perdidas.


A relação com a maconha prossegue em 1966, com o álbum Revolver – Paul McCartney admitiu, em 94, que a canção Got To Get You Into My Life se refere à droga. (Comentário pessoal: ai, posso demonstrar aqui minha desilusão amorosa? 'Did I tell you I need you every single day of my life?' Eu achava essa música uma declaração tão fofa! Risos.)  O músico explica: “Eu preferiria ter sido um puro e trabalhador rapaz, mas quando nós começamos a usar maconha, isso pareceu para mim um pouco mais ousado. Isso não parecia ter muitos efeitos colaterais como o álcool ou alguma ou outra substância, como pílulas, que eu sempre evitei. Eu gostei da maconha e isso para mim parecia expandir a mente".

O uso de alucinógenos pelo quarteto foi além: a percepção musical e a maturidade das composições andaram de mãos dadas com as experiências ébrias. Álcool, anfetaminas, ácido, erva, cocaína, tabaco e heroína são algumas das substâncias que fizeram parte da carreira dos Beatles. Em Happiness Is a Warm Gun, do White Album (1968), especula-se a relação entre John Lennon e a heroína (“arma quente” seria uma injeção da droga; a música fala sobre a necessidade de mais “uma dose”). Outra composição deste momento do músico seria a densa I Want You (She’s So Heavy).



O LSD é a droga que mais alimenta mitos em torno dos Beatles. Acredita-se que a primeira experiência de George e Lennon foi em 1965, na casa de um dentista que os serviu café com ácido. Lucy In The Sky With Diamonds, de 67, que teria suas iniciais em referência à substância, também carrega uma versão contada por John: a de que ele se inspirou em um desenho feito por Lucy O’Donnel, colega de seu filho Julian, de apenas 4 anos na época. As experiências continuam retratadas nos álbuns Magical Mystery Tour, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, White Album, entre outros. 

Nem tudo, porém, eram flores: o trabalho criativo do quarteto era desfavorecido quando rolavam exageros no uso de drogas. Depois de se encontrar no budismo, George Harrison diminuiu significativamente sua relação com o ácido e a maconha. Ringo Starr (mais adepto ao álcool do que às outras drogas) revela: “Sempre que abusávamos a música que fazíamos era uma bosta total”.

Mais do que um combustível, o uso de alucinógenos é considerado por muitos um sopro de inspiração, e não a essência musical na carreira de bandas que, por si só, nasceram de um talento inegável.

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