segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Faz sentido?

Gabriela Passy

E para fechar a sequência de especiais sobre letras-que-não-fazem-sentido, eu os convido a escutar algumas das minhas músicas preferidas. Lindas de morrer, mas que, colocando a poesia mais todo um contexto de lado e analisando a letra logicamente, causam alguma confusão.

Comecemos com uma daquelas que me acompanhou praticamente pela vida toda (ok, não vivi tanto assim ainda). O Bêbado e a Equilibrista, é, a meu ver, uma das músicas que melhor conseguiu unir crítica e beleza através de figuras metafóricas bem construídas. Composição de João Bosco e Aldir Blanc, na voz da inigualável de Elis Regina (só vai ter vídeo da Elis porque eu sou puxa-saco dela, mesmo).



Mas vamos às partes que podem parecer estranhas se não forem localizadas num contexto. E não, eu não tinha a menor ideia do contexto (ditadura militar, etc) quando, no auge da minha infância, minha mãe me apresentou a essa música. O primeiro verso é esse:  Caía a tarde feito um viaduto. Acho diferente. Daí depois vem a sequência de versos que me causa mais estranhamento: A lua / Tal qual a dona do bordel / Pedia a cada estrela fria / Um brilho de aluguel / E nuvens! / Lá no mata-borrão do céu / Chupavam manchas torturadas. E aí? Deu pra entender?

Vamos agora à música favorita de muitas Carolinas (Carolina é uma menina bem difícil de esquecer... Não, não é essa). Baby, do Caetano Veloso.

Baby by Caetano Veloso on Grooveshark

Você precisa / Saber da piscina / Da margarina / Da Carolina / Da gasolina / Você precisa / Saber de mim. Por que eu preciso saber dessas coisas? Eu estou precisando mesmo é saber como interpretar esse começo.

Tem uma estrofe de Medo da Chuva, do Raul Seixas, que me instiga bastante também: Aprendi o segredo, o segredo / O segredo da vida / Vendo as pedras que / Choram sozinhas no mesmo lugar. A pessoa precisa estar em um grau bem elevado para encontrar o segredo da vida em meio às pedras que choram ali no mesmo lugar.

Medo Da Chuva by Raul Seixas on Grooveshark

E para fechar a minha mini playlist, Bienal, do Zeca Baleiro. Essa é daquelas que não exige esforço nenhum para encontrar algo que não faça sentido. É só fechar os olhos, apontar para alguma parte da letra e, TCHARAM, ali está! Não dá pra eu transcrever a música toda, mas vou selecionar alguns dos meus versos preferidos.




Desmaterializando a obra de arte do fim do milênio / Faço um quadro com moléculas de hidrogênio. Esses dois primeiros versos já dão uma amostra grátis do que vem pela frente. Meu conceito parece, à primeira vista / Um barrococó figurativo neo-expressionista / Com pitadas de arte nouveau pós-surrealista / calcado na revalorização da natureza morta. Começou a complicar demais! Minha mãe não entendeu o subtexto / Da arte desmaterializada no presente contexto. Olha, querido, se eu fosse sua mãe, também não entenderia.

2 comentários:

  1. "Olha, querido, se eu fosse sua mãe, também não entenderia". Chorei!

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  2. O bebado e o equilibrista tem muita coisa daquela época. Por exemplo, lembro que teve um ano que caíram mesmo muitos viadutos no Rio de Janeiro. Mata borrão eu usava na escola, conhece? É um papelão que chupa todo excesso de tinta no papel quando usamos caneta tinteiro. Ai, estou me sentindo uma velha. Adorei seus comentários; sempre visualizava o bebado como um Chaplin e nunca tinha interpretado cada frase isoladamente.

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