sábado, 27 de outubro de 2012

Sobre a chuva



Monique Nascimento

Em dias de calor intenso na cidade de Bauru, interior do estado de São Paulo, você reza, você implora, você é até capaz de ameaçar São Pedro para que chova. Refiro-me a uma chuva de verdade, pois a dita cuja que faz por aqui costuma durar 15 minutos e ir embora como chegou, do nada. Uma chuva longa, não torrencial, mas contínua, que dure o dia todo é o que estou precisando. 

Aquela que deixa todo o céu em um tom médio de cinza, que faça parecer que o dia está escurecendo mais cedo, que te deixe com uma gostosa sensação de melancolia e a vontade de fazer nada. Ou, a vontade de mandar tudo à merda mesmo.

Quando está sol, todo mundo sorri e acha a vida linda e feliz. Alguns espécimes do sexo feminino aparecem com shorts tão apertados que parecem embalados à vácuo no corpo. Os decotes são daqueles que vão até o umbigo. Já os espécimes masculinos andam nas ruas sem camisa, seja os tipos sarados de academia ou não. Sinto falta das pessoas bem vestidas do inverno, com seus casacos, lenços, cachecóis ou até o moletom da faculdade mesmo.

Você acaba de tomar banho e já está pegajoso e grudento. Fora que namorar no calor é a pior das penitências. Não concorda? Então bom amasso suado, fedido e grudento para você.

O mundo faz silêncio para ouvir a chuva cair, nunca reparou? No calor, os pássaros cantam, as pessoas andam pela rua gritando conversando, o carro da pamonha sempre dá o ar da graça, famílias levam seus filhos (e o cachorro, gato, papagaio...) para passear. Na chuva não, o mundo cala a boca. E só se pode ouvir o barulho dos carros passando pelo asfalto molhado e dos pingos batendo nos telhados. Uma ótima trilha sonora.

O vento que anuncia a chegada da chuva é reconfortante, quase como um pedido de desculpas dos céus pelo calor infernal. Ele diz: “calma, agora vai ficar tudo bem, viemos remediar essa situação lastimável”.

É por isso que fico feliz quando chove. Não quero sol, casais felizes de mãos dadas, sorvete de chocolate, pele de fora, óculos escuros, praia, chinelo havaianas e tudo mais que o sol traz na bagagem. Fico melhor na presença do céu cinza, fechado, dos casacos e guarda-chuvas, da tranquilidade e melancolia, da pausa na alegria constante. E como já disse Shirley Manson, “você pode me fazer companhia, contanto que não ligue”.

 
Only Happy When It Rains by Garbage on Grooveshark

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