quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Apenas penas

Amanda Lima

Chega de fricote! Vá um pouco mais para o lado e me dê um pouco de espaço neste sofá preguiçoso. Não se importe se eu der piscadas longas. É que resolvi me deixar levar, violar a suposta lei que nos obriga a ter uma conversa rasa sobre um assunto qualquer. Com a convivência, foi inevitável recolher pela casa pedaços seus, detalhes sutis que me denunciam o que lhe interessa. É por isso que quando sento à mesa e o silêncio vibra angustiante pela copa, falo. Falo sobre o que você diz de lábios mudos e, como se lhe tivessem roubado as palavras, você assente com a cabeça.

Em tais ocasiões, não me passou pela mente o que agora me ocorre. É cedo demais. Cedo para decidir manter o mesmo corte de cabelo desde que pisei pela primeira vez nesta cidade. Cedo para me habituar a assistir diariamente aos mesmos canais da televisão e às mesmas pessoas que passam por esta rua. É cedo para que eu coma sempre os mesmos pratos e vá almoçar no restaurante de Seu Beto todas as terças-feiras. Estou muito novo para me tornar um velho cheio de amarguras, que esquenta o sofá durante horas, despeja lamúrias pelas calçadas e angustia-se no escuro.

Sabe, Vera, você deveria fazer o mesmo. Digo, deixar de fingir não ver que estamos estagnados e que o sorriso matinal que nos despertava está ficando amarelo, sem graça, sem verdade. Sinto falta da verdade em seu sorriso. Cansei de me submeter aos padrões. Troque seu par de sapatos marrons por outros amarelos, azuis, rosas. Tire a poeira dos vestidos de cetim. Há tempos que a textura do algodão a conforta e acomoda.

Não me lembro de ter mencionado, com a quietude que se instalou por aqui, mas na manhã passada vi um pássaro ser atropelado. Um pássaro, imagine! Tão pequeno quanto uma garrinchinha. A criatura bateu forte na janela daquele prédio novo que construíram na esquina da rua Doze. Deve ser outro desses de escritórios com cubículos que dividem as pessoas e em que todos berram ao telefone, mas nada se ouve. Pois bem. A garrinchinha foi ao chão e, em menos de um segundo, foi esmagada por um carro que mal deve ter notado sua presença.

Enquanto me recostava no poste e fumava um cigarro, creio ter sido o único a ver a cena toda. Pense só, Vera. Há meses fico por lá gastando o tempo e decorando os carros, seus donos, feições de pedestres, e parece que, no momento em que o pássaro apareceu, o gosto do cigarro mudou. As tragadas deixaram de ser puro hábito e passaram a me dar um prazer muito maior do que aquele que satisfaz esse vício antigo. Nunca aproveitei uma tragada como deveria.

Pensei estar louco ou fissurado pela garrinchinha, mas foi quando percebi que sou jovem demais para ser velho. Velho de espírito, quero dizer, com rotinas antigas e lembranças mais antigas ainda. Invente, Vera. Invente novas sobremesas, novos penteados, seu endereço, seu artista preferido. Deixe de lado esse rosto carregado de tédio. É, tédio. Não me olhe assim. E se agora não lhe roubo as palavras, é porque realmente as digo. "Sofra penas, viva apenas".

Milágrimas by Itamar Assumpção on Grooveshark

Inspirado em Milágrimas, de Itamar Assumpção e Alice Ruiz.

@mandiml

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