domingo, 9 de setembro de 2012

Romeu e Julieta

Amanda Lima

Misturas são sempre arriscadas e polêmicas. Manga com leite, chocolate com pimenta, doce com salgado. É preciso ter coragem e paladar sem preconceitos para admirá-las. A primeira vez que alguém cita algumas sugestões de um tipo excêntrico de culinária, você estranha, faz careta, experimenta e às vezes chega a gostar, mesmo que agridoce não faça o seu tipo.

O mesmo acontece, é claro, com a música. Já se acometeram da audácia de juntar samba e rap, rock e maracatu, pagode e sertanejo e, se essas misturas não tivessem sido bem-sucedidas, os artistas responsáveis por elas não viriam à sua mente tão rápido. Mas o que tratamos aqui é de algo muito mais profundo: o confronto encontro do erudito com o popular.

Metallica & San Francisco Symphony (1999)
Não estão só em jogo ritmos consagrados, mas a união do clássico e da massa, da orquestra e do metal. Sim, o metal. Perdoem-me desde já os fanáticos por James Hetfield e banda. O fato é que eu, uma leiga no quesito guitarras distorcidas e ferozes, conheci o álbum ao vivo Metallica & San Francisco Symphony Orchestra (1999) há muito tempo e aquela estranheza da culinária exótica nem passou por perto.

Enter Sandman by Metallica on Grooveshark

A San Francisco Symphony foi conduzida pelo maestro Michael Kamen (1948 - 2003) no show que deu origem ao álbum. Foram dois dias de apresentação no Berkeley Community Theatre, na Califórnia. James fez questão de reproduzir várias vezes que a ideia da façanha foi de Cliff Burton, baixista do Metallica até 1986, ano de sua morte. Seu substituto, Jason Newsted, assumiu o instrumento no disco e permaneceu na banda até 2001.

Os arranjos orquestrais são o contraponto genial aos riffs das composições do Metallica. A música original recebe um complemento, uma nova cara. Diferente da mistura entre queijo e goiabada, em que o queijo continua queijo e a goiabada continua goiabada, o sabor da banda se mistura ao da orquestra e cria um gosto totalmente inusitado.

Nothing Else Matters

Se a comparação com queijo e goiabada foi abstrata demais, este vídeo é um exemplo mais palpável. A intensidade com que as estrofes afetam quem as ouve é reforçada. Não se trata de igualar o erudito ao popular, mas de aproximá-los e, consequentemente, aproximar públicos de idades, ideologias e estilos distintos.


Master of Puppets

Para os que consideram a música clássica doce demais, o vídeo de Master of Puppets é um grande tapa na cara. A bateria com tempos bem marcados de Lars e as guitarras altas e distorcidas se encontram com as notas dissonantes dos violinos e o resultado é surpreendente. Vale ver, também, se você não imagina como instrumentos de sopro se encaixam no heavy metal de Metallica.


One

Este último exemplo é a clara definição da delícia em que se transformam queijo e goiabada batidos no liquidificador. A canção transforma-se em outra com a suavidade das harmonias compostas por Michael Kamen.


Na primeira semana de lançamento, foram vendidas 300 mil cópias do disco e, ao todo, mais de duas milhões. Mistura, sem dúvidas, facilmente degustável e deglutível.

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