sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Entre o AI-5 e a Pussy Riot



Carolina Ito

Cinco garotas mascaradas sobem no altar da Catedral de Cristo Salvador, em Moscou, e começam a dançar, cantar, dar socos e pontapés no ar. Seguranças e religiosas tentam parar as câmeras e a euforia das dançarinas, que iniciam uma oração em protesto contra o atual presidente russo, Vladimir Putin.

Essas garotas fazem parte de uma banda de punk rock, cujo nome adianta a provocação: Pussy Riot. O uso constante da balaclava, um gorro de lã que deixa apenas os olhos à mostra, é outra provocação que complementa o estilo punk-ninja das cantoras feministas.

Um mês após o protesto na catedral de Moscou, três de suas integrantes foram presas, acusadas de vandalismo e “incitação ao ódio religioso”. No dia 17 de agosto veio a sentença que condenou as russas Nadejda Tolokonnikova (22 anos), Ekaterina Samutsevich (30 anos) e Maria Alejina (24 anos) a dois anos de prisão.

A Pussy Riot já havia realizando outros protestos contra a reeleição de Putin acusando seu governo de autoritarismo e vínculo com a Igreja Ortodoxa, o que contraria o Estado secular da Rússia. Mas a condenação pela “punk prayer” ganhou repercussão internacional e foi criticada por artistas e entidades ligadas aos direitos humanos.

Maddona, Red Hot Chilli Peppers e Björk são alguns dos artistas que se manifestaram em apoio à banda durante seus shows. Björk ainda abraçou a causa colocando camisetas da Pussy Riot à venda em seu site, como forma de protestar pela liberdade de expressão.


Não é difícil relacionar o caso da banda russa com as ações autoritárias que ocorreram durante a ditadura militar no Brasil. Gilberto Gil e Caetano Veloso passaram longos e torturantes meses na cadeia por seus atos contraculturais - período descrito detalhadamente por Caetano em seu livro “Verdade Tropical”.

Sem mencionar a censura de diversas letras de música ligadas tanto à militância política, como no caso de Geraldo Vandré, quanto à música de tom mais popular, como aconteceu com algumas letras de Odair José. Puro moralismo que se desdobra em uma infinidade de outros “ismos” como machismo, racismo, autoritarismo e por aí vai (é por isso que Caetano sempre se incomodou com termo Tropicalismo, preferindo Tropicália, que é o nome de uma das obras de Hélio Oiticica).

Quando Rita Lee foi levada para a delegacia após criticar a truculência dos policiais que patrulhavam seu show, em pleno início de 2012, a censura mostrou que ainda é uma realidade. Esse é um exemplo recente que serve para ilustrar inúmeros casos de artistas que tiveram manifestações cerceadas, mesmo sem a vigilância explícita de um AI-5.

Até que ponto a arte é um território livre para manifestação de qualquer subjetividade? Existem limites para a liberdade de expressão? Essas contradições permeiam o caso da Pussy Riot e de toda a produção artística que pretende questionar dogmas e “incomodar” o público.

Do espírito tropicalista, traduzido na música de Caetano Veloso, podemos tirar uma lição: “é proibido proibir”.

4 comentários:

  1. Parece que a internet é uma das poucas coisas que impede um novo AI-5...

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  2. Isso me lembra a fala do ex-Ministro da Cultura, Juca Ferreira,durante uma entrevista: "eu não mistifico a internet. Ali é um santuário, uma via pública. Ali é um lugar de difamação, de calúnia, mas é um lugar também que colocou uma possibilidade imensa de acesso à cultura".

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  3. E uma possibilidade imensa de alienação, também =/ Nem a televisão suga tanto as mentes dessa geração

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  4. Na internet tudo é válido e tudo é condenável... é um território de ninguém e de todos, democrático, livre, culto e banal. A linha tênue e subjetiva da verdade, moral e ética. Acredito que a liberdade de expressão deva existir sempre, porém com bom senso, porque todos somos livres para nos expressar, porém devemos arcar com as consequências de nossos atos quando atingimos os outros. Nesse caso em especial acredito que a punição, ou repressão, foi exagerada, assim como o protesto da forma como foi feito também foi de mal gosto (leia-se eu não sou contra, mas acho que deveria ter sido mais sutil). Abraços Carol! - Agnelli

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