quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Entre Bobs e Dylans

Julia Germano Travieso

Destino. É ele que define nosso passado, nosso presente e, principalmente, nosso futuro. É por ele que as coisas acontecem ou deixam de acontecer. Mas o que define o destino? Como ele funciona? Qual é a mágica? Como ele nos leva a escolher entre um caminho ou outro? Como ele constrói nossa história, nossa personalidade?

foto: Jim Marshall
Poucas pessoas usam a palavra destino mais que Bob Dylan. Poucas pessoas são mais inspiradoras que Bob Dylan. Poucas pessoas são mais confusas que Bob Dylan. Confusas? Será que é exatamente isso que eu quero dizer? Talvez seja um termo equivocado. Mas como é possível comparar todos os Bob Dylans que já existiram desde o dia 24 de maio de 1941? Será que quem escreveu Times They Are a-Changin' foi o mesmo que escreveu Slow Train Coming? E será esse o mesmo que escreveu Tempest?

Conheci, por acaso do destino, alguns desses Bobs. Eles são todos misteriosos e talentosos. Mas também estão em constante conflito, sempre buscando alguma coisa aparentemente inalcançável, e têm enormes dificuldades para falar de si mesmos. Segundo ele – ou eles –, quem deve falar sobre você são os outros, ninguém é realmente capaz de se definir. Talvez por isso a gente insista em usar a palavra de segundos, terceiros ou quartos para definir os perfis das nossas redes sociais.

Blowin' in The Wind e Times They Are a-Changin' tornaram-se hinos da luta por direitos civis e movimentos contra guerra. Mas Dylan não se vê como um modelo a ser seguido, e não enxerga suas músicas como algo que deva guiar o comportamento de tantas pessoas. Por isso, em composições posteriores, ele diz "Trust yourself to find the path where there is no if and when/don't trust me to show you the truth". 

Além disso, qualquer música que veio antes de Like a Rolling Stone deve, segundo ele, ser desclassificada. Aquelas letras? Qualquer um podia fazer algo do tipo, ele só teria feito primeiro porque ninguém pensou em escrevê-las antes. Mas Like a Rolling Stone foi diferente. Foi aí que ele percebeu que realmente queria escrever música, não um livro, ou uma peça. Porque ninguém havia escrito algo do tipo antes. E nem ele acredita que possa fazer algo semelhante outra vez. 

É fácil perceber que a carreira dele se desenrolou como mágica. Ou seria obra do destino? Ou quem sabe um pacto, como ele mesmo já insinuou em uma das poucas entrevistas que deu na vida. Enfim, o que importa aqui é o fato de que, em 71 anos de vida, ele lançou 35 álbuns de estúdio, 58 singles e 13 álbuns de gravações ao vivo, entre outros, e cada um deles tem o retrato de um Bob diferente, com convicções diferentes.

O Bob amante do folk, que compôs Blowin’ in the Wind e Masters of War, toma uma posição mais revolucionária e lança Times are a-Changin’, um álbum que fala de pobreza, racismo e procura uma mudança na sociedade. Depois vemos um Bob diferente, que começa a cantar sobre assuntos mais pessoais e abstratos, tentando se distanciar da imagem que tinha de líder.

Após alguns anos, chega o Bob que muitos consideram um gênio: o Bob que compôs Highway 61 Revisited, aclamado pela crítica e pelos fãs de rock & roll como o mais importante e mais revolucionário álbum já feito. É nele que encontramos Like a Rolling Stone, Ballad of a Thin Man, Just Like Tom Thumbs Blues e a faixa que dá nome ao álbum. Então, vem o disco Blonde on Blonde, seguindo a mesma linha do rock, que será quebrada em John Wesley Harding, retrato de um Bob diferente, voltado para suas raizes acústicas. Agora um outro Bob, imerso na country music, revoltado com a falta de privacidade e a noção que as pessoas insistiam em ter de que ele era um líder, lança Nashville Skyline.

Em seguida vem Self Portrait, cheio de músicas cover de clássicos do pop e do folk, além de alguns instrumentais, na linha country do álbum anterior. A crítica e os fãs tiveram sérios problemas para abraçar essas novas ideias. Um Bob mais introspectivo, que surge depois de algum tempo, é responsável por Blood on the Tracks, que traz o nome Bob Dylan de volta ao gosto do público.

Após alguns anos vemos um novo Bob, que renasceu cristão, em Slow Train Coming, uma busca por algo que pudesse acalmar seu interior bagunçado. Mas após quatro anos sem encontrar todas as respostas que procurava, desperta outro Bob, voltado a suas raízes judias. Em seguida ele se envolve novamente com as questões do mundo, a Guerra do Vietnam, a fome na África.

Alguns outros Bobs apareceram e foram embora, tiveram seus altos e baixos, e nos trouxeram o Bob de Tempest: maduro, que trata de assuntos como amor, sofrimento e morte, mas faz isso se divertindo, brincando com as palavras, e sempre surpreendendo o público com mais um trabalho bem feito.

Muitas pessoas tentam entender todos esses Bobs, juntar todos eles em um só, mas será mesmo possível fazer isso? Eu acho que não. Neil Young disse uma vez que a essência do sentimento que te leva a escrever uma música é muito poderosa, mas é algo que vai e vem, você não consegue ficar com ela para sempre, ela não te pertence. Por isso Bob Dylan diz que não conhece mais o cara que escreveu aquelas músicas. Talvez por isso, também, ninguém possa reclamar o direito de reunir todos esses Bobs em uma pessoa só.

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