quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Debaixo do guarda-sol

Amanda Lima

(Foto: Divulgação)

Os sucessos musicais do verão, que tocam em todos os lugares daquela praia, raramente ‘sobem a serra’. Experiências suas comprovariam isso sem grandes dificuldades. E, como o próximo verão ainda está por vir e separa-se de nós por esse frio repentino em plena primavera, resta relembrar o anterior.

Ir à praia não significa, em grande parte das vezes, um encontro harmonioso com a música. Os gostos musicais dos donos de carros, quiosques e barraquinhas de água de coco são distintos e se misturam numa disputa interminável pelo volume mais alto. Acontece que, felizmente, essa confusão pode se mostrar coesa. Em um dia desses, no verão passado, escolhi o primeiro guarda-sol disponível para acalmar os pés que ardiam na areia quente.

Cheiro de protetor, porções de tilápia com limão e aquele som inconfundível ao abrir a primeira lata de cerveja do dia. Foi nesse ambiente que, depois de ouvir canções carimbadas do quiosque misturadas às dos arredores, percebi uma voz desconhecida envolta numa harmonia meio brega, meio bossa nova escrachada, meio samba transgredido. Depois de três ou quatro faixas, perguntei no balcão o nome da cantora, ao que me disseram: Andreia Dias.

Seu Retrato by Andreia Dias on Grooveshark

O fato de o nome ter grudado na minha memória mesmo depois de toda a viagem mereceu minha atenção, mais ainda por ter ressurgido depois de quase dois verões. Como descobri depois do triste fim da folga, o disco se chama Vol. 1 (2008), a primeira parte de uma trilogia chamada por Andreia de Trilogia da minha cabeça.

Vinda do Grajaú, na periferia de São Paulo, e pertencente às bandas Dona Zica, Banda Glória, Astronautas do Amor e Los Goiales, Andreia Dias faz com que caibam em suas composições o cavaco e a guitarra distorcida, a sanfona e o trombone. O inusitado é que a fusão de ritmos e instrumentos acontece quase ao mesmo tempo, sempre com o tempero cadenciado do brega.


E se a música de Andreia surgiu, para mim, por acaso, a cantora já se enfiava por aí com a sua voz doce e imponente. Em 2008, mesmo ano de lançamento do seu primeiro disco solo, ela gravou Síncope Jãobim com Tom Zé, faixa que integra o disco do compositor baiano Estudando a Bossa. Além disso, Andreia já dividiu palco com Jair Rodrigues, Luiz Melodia e Arnaldo Antunes, para citar alguns.

O Vol. 2 (2010) da trilogia compila canções mais dançantes e imprime uma tomada de identidade como cantora solo que ainda não parecia tão delimitada no primeiro. Ainda assim, a leveza e o aspecto cru de Vol. 1 me cativam mais, talvez por influência do ambiente em que o conheci. Arrigo Barbabé, Zeca Baleiro e Alzira E são algumas das participações do segundo disco. Arrigo, em Astro-Rei, ajuda a trazer de volta o rap em melodia da Vanguarda Paulista.

Astro Rei by Andreia Dias on Grooveshark

A terceira parte da trilogia, ainda não lançada, talvez eu ou você conheçamos em algum outro quisoque durante algum outro verão.

@mandiml

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