quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Vanguarda independente

Amanda Lima

A temática urbana e a obra de Itamar Assumpção
caracterizam a Vanguarda Paulista (Foto: divulgação)

Na memória musical de alguns reside aquela remota realidade sobre gravadoras musicais hegemônicas e poderosas, cujos produtos eram lei. Por mais que isto pareça estranho de se considerar, houve um tempo em que a cena independente inexistia e, mesmo que hoje surjam incontáveis artistas que produzem, gravam e divulgam seu próprio material, ainda fala-se pouco sobre a origem desse fenômeno.

Entre o fim dos anos 70 e meados dos anos 80, surge o “movimento”, por assim dizer, que questiona o lucro dos selos fonográficos proeminentes e, algum tempo depois, passa a imperar numa sociedade em que a comercialização da música chega a soar como grosseria ou insulto. A Vanguarda Paulista, como é chamada, movimentava-se quieta e constante nos lugares para onde a mídia não olhava e, apesar da denominação (criada por críticos musicais), não se pautava em estilos musicais afins ou qualquer tipo de ideologia.

Clara Crocodilo (1980), primeiro disco
de Arrigo Barnabé
Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Grupo Rumo e Premeditando o Breque (atual Premê) são quatro dos nomes que surgiram dentro de uma mesma temática. Muito menos do que afinação ideológica semelhante entre eles, o que os unia era o prazer de produzir música sem as rédeas da indústria fonográfica. O Teatro Lira Paulistana, localizado em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo, foi o palco para esses artistas, cujas composições retratavam a cidade e esbanjavam experimentalismo.

Naquele período, o público da Vanguarda Paulista esteve restrito aos universitários e aos grupos alternativos da capital paulista, em grande parte porque o intuito era ir de encontro àquele sistema de produção e comercialização de discos. Além disso, a gravação independente ainda era vista com viés negativo.

Itamar Assumpção (1949-2003), um dos principais – senão o maior – representante do período, é o grande exemplo de um artista que direcionou os ouvidos, o corpo e todo o resto de si para dentro de sua música. De certa forma, dispensou o externo, o público, para priorizar um produto jamais como mercadoria, mas como fruto daquele período de libertação alimentado, também, pelo fim da ditadura no Brasil.


A música de Itamar distingue-se de qualquer outra coisa porque é crua e elaborada, falada e cantada, presa na harmonia e na melodia, tudo ao mesmo tempo. A comercialização desse material implicaria em modificações que Itamar, felizmente, não se disporia a fazer. Sua obra sempre esteve pronta.

A banda que o acompanhava, Isca de Polícia, ainda existe e está na ativa, e o legado de Itamar, de seu parceiro Arrigo e de tantos outros ressurge em novos artistas, como uma espécie de ‘Nova Vanguarda’. Metá Metá, disco lançado em 2011 por Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França, é um desses e também a prova de que aquele movimento, ou melhor, aquela movimentação dos anos 80 continua viva, caminhando sorrateiramente por aí.

Vias de Fato by Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França on Grooveshark

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