quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Decifrando Tom Zé

Buzinório é um dos instrumentos inventados por Tom Zé
para o disco Jogos de Armar, de 2000 (Foto: Estadão)
Carolina Ito

Ao entrar no teatro do SESC Vila Mariana, em São Paulo, dei de cara com Tom Zé descendo do palco e pedindo conselhos à Neusa, musa e esposa, sentada na primeira fileira. A banda já estava toda no palco testando instrumentos e microfones numa confusão sonora alimentada pela aparente ansiedade do baiano de Irará. Será que eles já começaram o show?, eu me perguntava, sabendo que Passagem de Som é a primeira faixa do disco Jogos de Armar, que seria apresentado naquela noite como atração da Mostra SESC de Artes.

Emendando testes de guitarra com microfonias agudas, o show começou e Tom Zé foi apresentando os componentes da banda. Notei a ausência de Luanda no vocal, com sua voz que provoca calafrios até no mais insensível dos ouvintes. Mas os músicos Daniel Maia, Jarbas Mariz e a tecladista Cristina Carneiro (“a loira que toca que nem uma negra”, segundo Tom Zé) estavam a postos entre outros integrantes da banda.

Os “instromzémentos” faziam parte do cenário e das composições psicodélicas contidas em Jogos de Armar. A intenção do disco é de que as músicas possam ser montadas e remontadas por qualquer pessoa (por isso a capa vem acompanhada da frase “faça você mesmo”), com base no som de instrumentos inventados por ele. Serroteria, buzinório e hertZé são alguns desses instromzémentos transportados do cotidiano para o álbum.

Conforme Tom Zé apresentava as músicas, comecei a identificar alguns temas que norteiam suas performances e composições – uma total divagação da qual suspeito fazer algum sentido. Cheguei a quatro objetos de estudo musical ou, como sugere meu guia espiritual (o dicionário), quatro “realidades investigadas”: nascimento, truques da arte e da língua, a música metalinguística e a cidade como objeto. E vamos descascar esse abacaxi metido à teoria!

Nascimento - “Quando eu cheguei das estrelas...”
Em Nave Maria, Tom Zé relata sua chegada direto das estrelas para “uma caverna chamada nascer”. A reflexão cósmico-existencial continua com as canções Lua-Gira-Sol e O Gene.

“Somos tomos coiotes!”, grita o baiano entre as músicas, lembrando que todos nós somos animais ligados a terra – para bem ou para mal.

Truques da arte e da língua - “A arte é assim”
A música Cademar, que dura menos de um minuto, é motivo de piada para Tom Zé. Uma piada carregada de auto-ironia sobre as malandragens que os artistas utilizam para deslumbrar seu público, usando melodias estranhas, falando em línguas desconhecidas e parecendo o mais ininteligível possível. Mas, como ele mesmo diz, “a arte é assim”. Pode funcionar ou não, mas essa é a graça do jogo. Fliperama e Um Oh! E um Ah! completam a sequência de bizarrices criativas do baiano.

A música metalinguística - “Chegou um chamego chamado Pop...”
A chegada de Raul Seixas e Lampião no FMI e Chamegá são as músicas que cabem nessa parte. A primeira fala do rock de Raul Seixas que seria munido de um ímpeto comparável ao do cangaceiro Lampião. Já a segunda, segue um ritmo musical inventado pelo próprio Tom Zé, o Chamegá, que ele usa para falar da chegada brusca do rock e do pop na música popular brasileira - e o refrão termina com um “ah, puta que pariu!”, em alto e bom som, surpreendendo a parte desavisada da plateia.

A cidade como objeto - “Botaram tanto lixo, botaram tanta fumaça”
A briga do Edifício Itália e do Hilton Hotel e Botaram tanta fumaça são músicas em que Tom Zé se mostra como um dos grandes cantadores da cidade de São Paulo. Essa admiração por “Sampa” (lembrando aqui da canção composta pelo tropicalista Caetano) lhe rendeu o primeiro lugar no Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1968, com a música São Paulo, Meu Amor.

Sacode a cultura!

Outras interpretações marcantes e um tanto teatrais como Brigitte Bardot, Politicar e Todos os Olhos fizeram parte do espetáculo, apesar de não pertencerem ao disco Jogos de Armar.


Narrando essa experiência musical de assistir ao show de Tom Zé pela primeira vez, não posso deixar de observar que ele, aos 75 anos, dança, pula e esperneia como um menino. O corpo, de um lado, demonstra virilidade, mas a mente enfrenta alguns lapsos de memória contornados imediatamente pelo parceiro de banda, Jarbas Mariz, que sempre completa suas frases e pensamentos inacabados.

Atendendo aos pedidos de “mais um” da plateia, o baiano termina dizendo que “não fazer bis é falta de educação”. E dá-lhe forró Xique-Xique para o povo dançar!

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