terça-feira, 10 de julho de 2012

Siba: Poesia, cultura e experiência musicadas

Nathália Silva*

Avante, mais recente CD do pernambucano Sérgio Veloso, o Siba, é um bom exemplo de que nem todo conhecimento provém de instituições. Graduado em música, foi no sertão pernambucano, longe do ambiente universitário e da paisagem já cosmopolita de Recife, sua cidade natal, que o artista encontrou a base que procurava.

(Foto: Site oficial do Siba)
Decidido a fugir do senso comum e a buscar algo diferente da fórmula que lhe havia garantido reconhecimento até então, Siba parte, em 2001, no auge de seu sucesso, para Nazaré da Mata, cidade do interior de Pernambuco e antiga região canavieira e escravocrata. Levando a sério seu projeto de ampliar sua bagagem cultural e seu repertório como artista, o recifense entrou para grupos de teatro da região, tornou-se mestre de maracatu e envolveu-se com a cultura da cidade. O resultado dessa jornada de dez anos é um rock único e pluralista, claramente influenciado pelos ritmos da região e carregado de lembranças do artista.

Após deixar Nazaré da Mata, Siba ainda levou cinco anos para a produção de Avante, processo que será exibido no documentário Siba - nos Balés da Tormenta, DVD que deve chegar às lojas no segundo semestre de 2012. Quanto ao CD, lançado em janeiro deste ano, é como um retrato da diversidade. O som da guitarra se mistura a ritmos que remetem ao manguebeat, a canções de repentistas, ao maracatu, ao pop nordestino, tudo isso garantindo às músicas um aspecto rico e inovador.

Siba é, antes de tudo, um poeta. Ele confere, em suas canções, lirismo a memórias e fatos cotidianos, levando muito de sua vida pessoal a seu CD. Cada música parece relatar uma pequena história ou diálogo, sempre de modo poético ou por meio de analogias. Em A bagaceira, por exemplo, rimas engraçadas e expressões regionais transformam em música cenas triviais: “Pra enganar a fome/Não quero espeto da praça/Dou um chupão num gellys/E o tira-gosto é cachaça”. Além disso, aspectos de cada música carregam algum significado, de modo que não é por acaso, por exemplo, que Mute, a sétima faixa do CD, combina o título à música composta apenas pela melodia da guitarra.

O rock com sotaque e o aspecto regional de Siba dialogam com ritmos mais populares, marcados pela presença de violas, tubas e efeitos de vibrafone. Embora o estilo possa desagradar aos mais conservadores, ele se constitui como traço genuinamente brasileiro e criativo. A mistura de gêneros musicais, a guitarra que concretiza essa multiplicidade, a negação do tradicional e, principalmente, a poesia de cada faixa fazem de Avante um bom retrato da cultura brasileira.

Ouça agora a música que dá nome ao CD.


*Nathália Silva é estudante de Jornalismo e colaborou com este post para o Play This Beat.

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