quarta-feira, 4 de julho de 2012

Rap na Via Dutra

Michael Barbosa*

13 de Agosto de 1998. Os Racionais MC's, após complicada negociação e uma série de exigências, cantam no palco do Video Music Brasil – premiação anual de videoclipes da MTV Brasil – Capítulo 4 Versículo 3, um dos hits do álbum Sobrevivendo no Inferno, do ano anterior. Em dado momento, Mano Brown, vocalista do grupo, direciona-se ao público e diz que a sua mãe já lavou roupa de muitos dos “playboys” que assistiam ao show. Ali estava uma das únicas aparições ao vivo dos Racionais na televisão.

Dez anos após o começo do grupo, os Racionais chegavam ali à confirmação do sucesso. O quarto disco do grupo jogou os holofotes para o rap nacional como ninguém fora capaz de fazer. Mano Brown e seus parceiros colocaram o rap com a marca da periferia paulistana a um passo de ter seu convite para ingressar na grande mídia, mas optaram por sair correndo no sentido oposto.

Os efeitos da decisão daqueles quatro caras vociferaram durante todo o desenrolar do rap paulistano – Sabotage, Facção Central, Trilha Sonora do Gueto... A postura se manteve. Se por osmose ou ideologia, não sei. Enquanto isso, rap e televisão quase que só se viam por meio de expoentes cariocas do gênero, como Planet Hemp e Gabriel o Pensador. Eis que, no final da primeira década do novo século, surgem os responsáveis por quebrar a lógica de que o underground é o lugar casto do rap paulista e por misturar toda essa história: Emicida e Criolo.


Não que entre aquele VMB e o Emicida ir ao De Frente com Gabi nada tenha acontecido; antes mesmo do clássico álbum dos Racionais, os cariocas do Planet Hemp ganhavam álbum de ouro com o seu Usuário (1995) e não compartilhavam da postura anti-midiática que se delineava em São Paulo. Já no mesmo 1998 do Sobrevivendo, Gabriel o Pensador tocava nas rádios do país todo com o sucesso Cachimbo da Paz e não recusava um bom convite da Globo.

Ora, mas o que separava Racionais e Sabotage de Marcelo D2 e Gabriel, além da Dutra ou da ponte aérea? Mano Brown canta o trauma que ele carrega “pra não ser mais um preto fodido” enquanto D2 declama que não é menos digno por fumar maconha, e isso há de explicar alguma coisa e permitir que se elaborem algumas hipóteses sobre como um mesmo gênero pode trilhar caminhos tão diferentes nesses dois polos.

Dicotomizar é sempre um perigo – não se trata aqui de estereotipar o rap do Rio como algo leviano e o de Sampa como a síntese de toda a consciência social periférica do país. Porém, a politização (indubitavelmente presente em ambos) se deu de maneiras distintas. Na forma e no conteúdo, o rap do Rio se mostrou mais acessível. Na forma porque lá a mistura de ritmos sempre esteve presente. O nascer do rap carioca não se distancia muito nem na cronologia e nem na geografia dos primeiros grandes bailes funk organizados pelo DJ Malboro, das escolas de samba e seus ensaios ou das pistas de skate e do hardcore dos anos 90. Só um caldeirão de misturas como esse poderia possibilitar um grupo de “rap rock” que tinha no vocal principal um sambista de coração: esse era o Planet Hemp, de D2 e BNegão.

Com guitarras ágeis, percussão pesada e letras que gritavam pela legalização da maconha em mensagens nada sutis de músicas como Legalize Já e versos como “Quando eu fumo marijuana como eu fico? Chapado!”, de Mantenha o Respeito, o grupo se tornou uma das expressões definitivas do que era fazer rap no Rio. A música do Planet Hemp era um ato político, com toda certeza, mas não era – e aí encontra-se o divisor de águas – um retrato social dotado de pessoalidade ou introspecção. Pelo contrário, era um discurso que trabalhava com um público heterogêneo através de uma musicalidade heterogênea.

Mantenha O Respeito by Planet Hemp on Grooveshark

Enquanto isso, os Racionais ainda faziam um rap preso às raízes do gênero – DJ e MC. O DJ KL Jay trabalhava da mesma forma que os primeiros DJ's, surgidos em meados dos anos 80: escolhia um sample (em geral um pequeno trecho de alguma música – no caso dos Racionais habitualmente do Tim Maia) e fazia seu trabalho de mixagem em cima daquilo, dando, literalmente, a base para os MC's do grupo rimarem. “Simples” assim. E, nas letras, linhas narrativas quase que tresloucadas e temáticas que são dedo na ferida de um jeito único.

Peguemos Negro Drama. O discurso em terceira pessoa “Negro Drama, entre o sucesso e a lama...”, vira primeira “Tim... tim... um brinde pra mim/sou exemplo de vitórias...”; o que era impessoal vira dedo apontado na cara de um certo interlocutor “Você deve tá pensando, o que você tem a ver com isso” ou “Olha o castelo, foi você quem fez, cuzão”. É a agressividade, o tom de denúncia. A audiência global é trocada por um discurso direcionado, que compartilha os sofrimentos com que tem a mesma origem e brada contra os inimigos (o senhor de engenho, o playboy, o patrão). Os Racionais e seus filhos foram a síntese do ódio reprimido, do sentimento de vingança enclausurado, do Brasil do racismo velado com suas mazelas escancaradas.

Negro Drama by Racionais MC's on Grooveshark

E Emicida e Criolo? Ainda são dedo na ferida: “… uns preferem morrer a ver o preto vencer”, canta Criolo em Sucrilhos; “Pretos amontoados por um racismo brutal/Não tem justiça, quero vingança, foda-se, agora é pessoal!”, canta Emicida em Pra não ter tempo ruim. O que mudou então deve ter sido a estética e, claro – retomando a introdução –, o trato com a mídia. Eis nesses dois a primeira geração de rappers paulistanos de destaque a se desprender do estigma criado pelos Racionais lá atrás.

E a classe média? Abraçou todos eles, Mano Brow, D2 ou Criolo, apenas por motivos diferentes. No rap carioca do Legalize Já e do Cachimbo da Paz, foi identificação, bandeiras em comum. Nas frases paulistanas, tão cheias de ódio, possivelmente um tipo de Síndrome de Estocolmo (aquela sobre a patricinha que se apaixona pelo sequestrador), como bem observou o crítico musical Pedro Alexandre Sanches, em texto do ano passado sobre Criolo e as plateias elitizadas de seus shows em Sescs da vida. É esperar para ver onde vai dar esse caso de amor, ódio, cumplicidade e aversão entre rap, Rio, Sampa, a mídia e a playboyzada.

Sucrilhos by Criolo on Grooveshark 

*Michael Barbosa é estudante de Jornalismo e contribuiu com este post para o Play This Beat.

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