terça-feira, 31 de julho de 2012

Menos é mais

Vanessa Souza

Eu passei o mês de junho inteiro ouvindo o Extraordinary Machine da Fiona Apple. Por incrível que pareça, só fui conhecer as músicas dela neste ano. Já tinha ouvido e lido o nome por aí, mas nunca tinha escutado qualquer canção dela. Depois de procurar por sua discografia de apenas três álbuns de estúdio em 18 anos de carreira, achei que o até então último lançamento da cantora era o que musicalmente combinava melhor com a minha vida no momento.

Foto: Dan Monick
Eu ouvia o álbum a toda hora, em todo lugar. Um dia, enquanto esperava por uma carona que nunca chegava para ir até a faculdade, comecei a prestar atenção redobrada na voz da Fiona. Achei um pouco fria. Parecia que ela não tinha prestado atenção às suas próprias palavras na hora de gravar o disco. Não demorou para eu descobrir que esse disco, na verdade, tinha sido gravado pela primeira vez em 2002 e não foi lançado, segundo os fãs, porque a Sony achou o álbum pouco comercial. Já a versão oficial do caso diz que a cantora é que estava infeliz com o resultado e decidiu regravar tudo. A segunda versão do Extraordinary Machine finalmente foi lançada em 2005.

Fiona Apple tem a fama de ser visceral em suas composições e intensa na interpretação das suas músicas. Talvez o motivo pelo qual as canções daquele disco parecessem ter uma grande falta de emoção mesmo com letras fortes fosse o grande tempo que levou desde a composição até a gravação final. De qualquer forma, eu estava ansiosa pelo próximo trabalho da cantora.

Quando fiquei sabendo que seu novo álbum já tinha saído (há algum tempo, na verdade – o lançamento foi no dia 19 de junho), peguei para ouvir e matar a minha curiosidade de se a Fiona tinha perdido o sentimentalismo ao cantar ou se ela só teve mesmo que gravar músicas que não tinham mais nada a ver com o que ela sentia para o seu disco de 2005. É aí que vem a boa surpresa: seu quarto álbum trazia uma Fiona novamente cheia de emoções pulsantes.

Capa do álbum The Idler Wheel...
O nome completo do álbum é The Idler Wheel Is Wiser than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do, um poema de autoria da própria cantora. No entanto, é mais comum que o álbum seja chamado apenas de The Idler Wheel… . A faixa que abre o disco é o single Every Single Night, que ganhou um clipe tão surreal como ela dá a entender na letra que seus sonhos são. Logo em seguida, Daredevil revela que os vocais da Fiona podem sim carregar emoção ao se rasgarem depois do segundo refrão.

A canção Left Alone começa com batucadas e se desenvolve para uma batida de piano perturbadora. Talvez por ter sido produzido por um baterista (Charley Drayton) que a percussão no The Idler Wheel… é bastante valorizada. O piano e a voz também são colocados em posição de destaque e fazem de Left Alone um bom exemplo do que é o álbum como um todo.

A faixa seguinte também traz o lema que dominou o disco – menos é mais. Werewolf é a prova de que uma ótima canção pode ser feita apenas com voz, piano e um pouquinho de percussão. Também no resto das músicas é raro que outros instrumentos apareçam e, quando aparecem, ficam em segundo plano. Werewolf também apresenta uma ótima letra, em que a cantora compara o homem amado a coisas estranhas, mas, ainda assim de maneira inteligente. Valentine também é outro destaque por causa da poesia, principalmente nos versos “I made it to dinner date / My tears seasoned every plate”. Em Regret, Fiona volta a rasgar sua voz no momento mais sombrio do disco para depois quebrar o gelo com Anything We Want, a única música otimista do álbum.

O fim chega com Hot Knife é não é menos que grandioso. Mesmo seguindo a tendência de boas letras que as canções anteriores apresentaram, o principal nesta é a música em si. As batucadas recomeçam e vozes a capella preenchem a canção, fazendo com que você pare tudo o que está fazendo só para admirar uma das maiores obras de arte da carreira da Fiona – caso você não estivesse fazendo isso desde a primeira faixa do álbum.

Hot Knife by Fiona Apple on Grooveshark

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