quarta-feira, 13 de junho de 2012

O suingue de Comunidade Azougue

Amanda Lima

Som com influências de toda a banda define o primeiro disco de Comunidade Azougue

O que se pode esperar de Comunidade Azougue, banda de Olinda (PE), antes mesmo de conhecê-la, é um som no mínimo explosivo – retratado pela bebida de pólvora, cachaça e limão que nomeia o grupo. Depois de quase seis anos juntos, Fred Caiçara (voz), Chico Tchê (baixo), Léo Oroska (percussão), Júlio Castilho (guitarra) e Sanzyo Dub (bateria), acompanhados por outros parceiros de estúdio, gravaram o primeiro disco, intitulado Coisas que não se fabricam mais (2011).

Terminado o show de divulgação do álbum em Bauru, no dia nove de maio, os pernambucanos de Comunidade Azougue se mostraram abertos a conversas com o público. Não foi preciso puxar papo. Júlio Castilho e Chico Tchê se aproximaram para contar sobre a viagem a São Paulo e as percepções da apresentação. Com todos os integrantes reunidos, muita risada e descontração permearam a entrevista.

Qual o motivo do nome da banda: “Comunidade Azougue”? 

Fred Caiçara: Azougue é uma bebida feita de cachaça, pólvora e limão. É em Nazaré da Mata que rola isso. A galera faz uma bebida lá e chamam de azougue, mas a original ninguém mais quer tomar por conta da pólvora. Os caras pegavam a pólvora, misturavam com cachaça, colocavam limão e tomavam. E aí iam para as batalhas contra os holandeses. Nada mais alucinógeno do que isso, foi o que a gente entendeu. E nada mais instigado do que azougue. Nessa construção, surgiu a Comunidade, que veio com a proposta de cada um botar um pouco de si junto, como som comunitário. Aí ficou a dita Comunidade Azougue. 

Vocês misturam vários estilos. Tem um pouco do samba, do afrobeat, do sambalanço, um gingado baiano. Como vocês veem essa mistura? 

Sanzyo Dub: Eu acho que é inevitável, porque todo mundo aqui escuta todo tipo de som, desde reggae, dub, afrobeat, samba, cúmbia... Quando a gente tá criando, compondo, a gente chega com ‘vamos fazer um som assim’, ‘bota essa nota aqui, vê se combina’. E aí acontece. A gente não faz a música pra virar um samba. Fred chega com a letra, Júlio com a harmonia e aí a gente começa a criar em cima disso.

Sobre o nome do disco: “Coisas Que Não Se Fabricam Mais”. Essa faixa fala sobre várias coisas que já não existem. Isso tem relação com o estilo da banda, que retoma o samba das décadas de 1960, 1670? É esse o fio narrativo do disco?

Fred: É isso aí. A gente pensou em um nome que sintetizasse o que a gente estava fazendo. A gente tem uma coisa envelhecida ali, nessa proposta de fazer um vinil. É que o dinheiro não deu e a gente fez uma capa de compacto com um CD dentro. A ideia ainda para o final do ano é fazer um vinil com 300 cópias desse mesmo material. A gente vai adicionar mais uma faixa, algo desse tipo, mas ainda falta recurso.

Quais são essas influências que “não se fabricam mais”? 

Fred: Pra mim, Germano Matias, um sambista daqui de São Paulo que estourou na década de 1960. É um catedrático do samba. Tem o Bezerra, o samba do Recôncavo Baiano, que você encontra Riachão, Roberto Silva... Esses são os que usavam o trombone, que faziam a letra mais coladinha com a melodia. Acho que foram os caras que a gente sofreu bastante influência. Mas aí quando você bate na mão de Chico, ele já mete umas linhas de reggae, uma história de Jamaica. Na mão de Oroskinha, o cara já tem uma influência forte de Jackson do Pandeiro. Ele já chega com a ideia do que rola de novo lá no Recife.

Sobre o que tem surgido por lá... Os ritmos pernambucanos são muito ricos. Dá pra destacar o Manguebeat, com as figuras do Chico Science, do Fred Zero Quatro. O que vocês acham do cenário musical pernambucano de agora? 

Fred: Eu acho que continua muito forte. Acho que a mídia não tá mais olhando pra lá, mas isso é natural. Os caras estão se organizando a ponto de se manter. Tem muita gente fazendo coisas bacanas. Tem disco novo de Zé Manoel saindo. Tem uma galera massa que é o Ska Maria Pastora, com uma mistura de ska e frevo. É gente competente pra caramba. 

Sanzyo: As bandas estão criando outros caminhos e procuram até se afastar do rótulo de Manguebeat porque já acham muito pesado. Há uns cinco, seis anos, toda banda de lá que vinha pra São Paulo era vista como de Manguebeat, era rotulado. A gente faz o som que a gente curte, que a gente quer. As bandas que surgem vão saindo desse rótulo, não necessariamente viram Manguebeat. 

Fred: Acho que é aquela coisa da mídia de querer rotular, de querer entender o que vem de lá. Mas desde a época do Manguebeat já era essa briga toda. Os caras do Devotos faziam hardcore e chamavam de Manguebeat. Acho que é uma coisa natural do mercado. Houve uma vitrine e a gente tá aqui também por conta do que aconteceu no passado.

@mandiml

Texto originalmente publicado no site Livrevista e adaptado para o Play This Beat. Leia também a cobertura do show.

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