sexta-feira, 15 de junho de 2012

O outro lado do funk proibidão



Carolina Ito

Tenho escutado com certa frequência frases como “funk não é música” e “pode tocar qualquer coisa nessa festa, menos funk”, entre pessoas de várias idades, especialmente jovens de classes média e alta. Com o advento das redes sociais, elas encontraram um meio de exteriorizar toda essa repulsa canalizada no funk, como mostra a imagem acima, publicada por um grupo no Facebook e compartilhada por centenas de usuários.

É claro que o estilo musical em questão não é o funk “primogênito”, criado nos Estados Unidos na primeira metade do século XX como um desdobramento radical do blues e do soul. O funk tratado aqui é o carioca, o “proibidão”, que aparece esporadicamente na grande mídia e cultiva seu espaço na internet e nos bailes de periferia.

A dúvida é: por que o funk carioca é estigmatizado a ponto de nem ser considerado música por certos segmentos da sociedade?

O professor de Comunicação da UFBA, Jeder Janotti Júnior, em seu artigo Música popular massiva e gêneros musicais: produção e consumo da canção na mídia define que a “canção se refere à capacidade humana de transformar uma série de conteúdos culturais em peças que configuram letra e melodia”. Nessa perspectiva, o funk não deixa de ser uma manifestação artística em que fatores sociais e históricos culminam na produção de sentido através da música e da dança.

Tati Quebra Barraco protagoniza o documentário
"Sou Feia mas  tô na moda" em que é descrita
como uma "feminista sem cartilha"
Alguns estudiosos atribuem a intensificação do preconceito a um fato ocorrido no Rio de Janeiro, em outubro de 1992: o arrastão na Praia do Arpoador. “O baile [funk], depois do arrastão, passou a ser visto como um fenômeno, antes de qualquer coisa, violento. A violência, e não a diversão, se transformou na sua principal marca, e os funkeiros foram estigmatizados”, afirma o antropólogo Hermano Vianna em seu artigo O funk como símbolo da violência carioca. Vianna também lançou um manifesto em defesa da música de periferia (leia aqui).

A partir desse dia, a mídia passou a distribuir manchetes que colocavam as galeras do funk como causadoras de pânico e instabilidade na “Cidade Maravilhosa”, além de associá-las ao tráfico de drogas e ao crime organizado. Essa imagem disseminada por jornalistas e leitores alheios à realidade do funk carioca  provoca efeitos até hoje e fica difícil delimitar se os funkeiros incorporaram ou não esse estigma de violência “de fora para dentro”.

O funk carioca, tal como se configura atualmente, nos coloca diante de identidades em conflito e pode promover reflexões sobre diversos temas. Por utilizar uma linguagem mais direta e, aparentemente, sem filtros, acredito que o proibidão provoca um choque estético e de realidade em que temas como machismo, feminismo, violência, beleza, maternidade e, sobretudo, o corpo, contrariam convenções sociais construídas ao longo dos séculos.

Não defendo que o funk possui caráter libertário, afinal, muitas letras caminham na direção contrária e reforçam preconceitos um tanto arcaicos. Mas por essa mesma razão, penso que todo o contexto de desenvolvimento desse estilo musical vem pra derrubar mitos que se infiltram lentamente no imaginário brasileiro, relacionados a uma ideia abrangente de “democracia” (racial, de gênero, de práticas sexuais, etc).

Funkeiros como Mc Catra, Valesca Popozuda e Tati Quebra Barraco sinalizam que não atingimos essa  condição idealizada de democracia – e que, na verdade, estamos longe disso - pois a desigualdade e a violência estão escancaradas para quem quiser ouvir nas canções “proibidas” do funk.  

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