sexta-feira, 8 de junho de 2012

Adoniran dança o Ballet


Gabriela Passy

Nada mal para um domingo depois do almoço. Quanta gente! Você está vendo? Tem uns lugares lá na frente. Não sei por que ninguém gosta de sentar nas duas primeiras fileiras. Eu gosto porque dá pra ver os rostos, direitinho. Você vem comigo?

A gente veio ver dança, né? Ballet Stagium. Sta-gium. Nome engraçado. Já ouvi falar, mas só ouvi, mesmo; não sei mais nada sobre eles. E o espetáculo chama Adoniran... Tou curiosa. 

Vai buscar um folheto lá em cima pra mim? A moça tá distribuindo. Por favor! Tá bom, eu vou, sou eu quem quer, mesmo. “No centenário de nascimento de Adoniran Barbosa, o Ballet Stagium dança Adoniran, o poeta paulista que, por sua obra musical, retrata a cidade de São Paulo mediante um dos fundamentos de sua formação como cidade moderna: o amálgama entre culturas”, é isso que diz o folheto. O resto eu tou com preguiça de ler agora. Queria que começasse logo...

Foto: Filipe Ferraz
O palco está vazio, exceto por um varal. Ou algo muito parecido com um varal. As roupas penduradas formam a palavra “Adoniran”. O “I” é um vestido, você reparou?
***

Foto: Rodrigo Meneghello
Primeiro, segundo e terceiro sinais. As luzes se apagam, a conversa cessa e começa uma música, mas ainda não é Adoniran. É um tema circense. Os bailarinos entram em cena e tudo o que eu vejo são cores e sorrisos. Meias arrastão coloridas, sandálias nos pés, maquiagem extravagante e um figurino diverso, formado praticamente por bustos justos, saias de tule e calcinhas de renda que apareciam à menor rodopiada. Os meninos vinham com duas calças sobrepostas, camisas listradas, suspensórios e sapatos. Nenhuma roupa era igual à outra, mas como era harmonioso tudo aquilo! Tantas coisas diferentes formando um só: amálgama de culturas, não era isso?

Só na primeira aparição, já deu para perceber o altíssimo nível de técnica ao qual eu seria submetida. Era de invejar aquele físico maravilhoso, as panturrilhas saltando das pernas, os braços magros e aquelas costas marcadas que eu tanto admiro. Não que eu ache que o físico faz o dançarino - longe disso; mas, sendo bailarina (e admiradora da magreza alheia), tem certas coisas que não posso deixar de reparar. 

Foto: Filipe Ferraz
Entre pirouéttes, saltos e developpés, algo mais chamava a atenção. Era a música. É claro que eu queria mais é saber da dança, mas a música entrava em mim e não saía mais. Eu cantarolava por dentro os versos conhecidos, batucava nas pernas os ritmos que pareciam fazer parte de mim. Trem das Onze, Bom Dia Tristeza, Tiro ao Álvaro, Saudosa Maloca, Iracema, Mensagem, Viaduto Santa Efigênia, As Mariposa. Eu conhecia tudo aquilo, umas mais, outras menos, mas conhecia. Conhecia e fiquei maravilhada ao perceber o quanto as duas coisas que mais me fazem feliz - dança e música - podiam, realmente, se complementar. As excelentes coreografia e montagem teatral pareciam agir como um fio a unir dois extremos aparentemente muito afastados um do outro: os ritmos de Adoniran e o ballet clássico.

***

Foto: Rodrigo Meneghello
Olha esse moço, que engraçado! É, o careca do guarda-chuva. Ele tá mais pra ator do que pra dançarino... E como ele é bom! Parece quem tem dor e mais um monte de sentimento vindo de dentro. Os olhos dele olham pra dentro dos nossos. Será que é ele o tal de Adoniran?

2 comentários:

  1. Que delícia de crônica! Queria ler mais, ficou com gostinho de quero mais.

    ResponderExcluir
  2. Parabéns! Ótimo texto.

    ResponderExcluir