sábado, 19 de maio de 2012

Sobre a Virada Cultural de Bauru

Gabriela Passy

Você ficou trancado em casa por mais ou menos duzentos finais de semana consecutivos, não é mesmo? Ficou em casa não porque quis, mas porque Bauru não tinha nada a oferecer. De vez em quando - ou sempre - uma festa universitária, um cinema previsível e caro, o Jack Pub quando dava na telha; nem o Shiva Bar existe mais como opção. Imagine que, de repente, você tenha 24 horas de programação louca e gratuita. Mesmo que queira, você não vai conseguir acompanhar tudo o que gostaria. E agora, o que você vai fazer?

O Funk Como Le Gusta se apresenta no Parque Vitória
Régia (Foto: www.funkcomolegusta.com/index.php/fotos)
Das 18h do sábado, dia 19 de maio, até às 18h do domingo, dia 20, mais de vinte atrações vão passar pelos três locais escolhidos para sediar a Virada Cultural Paulista de 2012: o Parque Vitória Régia, o Teatro Municipal e o SESC Bauru. Prepare seus energéticos, pó de guaraná e seja lá o que mais for, desde que te dê uma energia extra.

Os destaques entre as atrações musicais no Vitória Régia são a big band paulista Funk Como Le Gusta e o grupo de rap Racionais Mc’s. Ainda rola jazz, forró, ritmos brasileiros, blues, rock classicão, muita atração circense, MPB, samba, choro, maracatu jazz (sim, isso é um estilo musical) e moda de viola.

Na programação do Teatro Municipal eu destaco a apresentação do Ballet Stagium, com o espetáculo “Adoniran”, em homenagem ao músico paulista, e o show de Aline Calixto, uma das revelações no cenário do samba nacional.  No SESC Bauru ainda tem o Léo Maia – sim, o filho do Tim – fazendo uma releitura dos sucessos do pai e o Zé Renato, comemorando os 35 anos de carreira.

O Ballet Stagium traz o colorido "Adoniran"
 (Foto: Arnaldo J.G. Torres)
Ótima a programação, né? E olha que eu joguei as atrações bem por cima, confesso que talvez dando prioridade aos meus próprios gostos (a programação completa você vai encontrar no portal do G1). Daí você fica pensando: será que eu vou dar conta? Não, não vai, e acredito que esse seja um dos maiores problemas da Virada. Por que não podemos ter uma programação cultural de qualidade distribuída pelo ano inteiro, ao invés de espremida num único dia?

É claro que o projeto da Virada tem de ser considerado como uma tentativa de chamar a atenção para a cultura e promovê-la entre todas as classes – não que funcione completamente. A intenção é boa, mas há de se considerar que não adianta ter 24 horas de cultura uma vez por ano se no resto do tempo reina o marasmo. Talvez funcione em metrópoles como São Paulo, onde se iniciou o evento, e Paris – que tem o Nuit Blanche, evento no qual a Virada foi inspirada , que já têm a cultura enraizada na cidade. Mas aqui?! Desculpe-me a Prefeitura, desculpe-me a Secretaria de Cultura e o Governo do Estado de São Paulo, mas não são e nunca serão 24 horas que vão levar a cultura ao povo. Se é que é esse o objetivo real da coisa.

Não gosto de (e nem vou) me arriscar nessa área. Política é assunto que dá brecha para muita especulação e muito pano pra manga, mas tem certas coisas que não dá para deixar de notar. No ano passado Bauru não foi inclusa entre as cidades que participaram da Virada Cultural Paulista. O porquê eu não sei, ninguém me contou e eu não vou tentar adivinhar. Esse ano é 2012, né? É, é 2012.  O que que tem esse ano, mesmo? Olimpíada em Londres, mais um Campeonato Brasileiro, show da Madonna... E eleições. Tem governo querendo se reeleger (panis et circensis, fica a dica).
                
Pensem sobre isso. E enquanto pensam, curtam mesmo a Virada, vão em tudo o que conseguirem. Com certeza não será tempo perdido e tem muita coisa interessante para assistir ou conhecer. Eu estarei fazendo o mesmo, aproveitando para usufruir da música, da dança e do que mais aparecer enquanto ainda estiverem por aqui. 

4 comentários:

  1. Fica difícil imaginar que a virada teve mais forças no ano de eleição se ela aconteceu em 3 dos 4 anos de mandato.

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  2. Querido Anônimo,
    Como eu disse, política abre espaço pra muita especulação. O fato de não ter acontecido a Virada em Bauru no ano passado, você há de convir, dá um destaque maior pra Virada desse ano, que tá com uma programação fortíssima, e, coincidência ou não, no ano da eleição. Não estou dizendo que a Virada SÓ está acontecendo por causa de ser ano eleitoral, mas isso não impede que seja usada como propaganda ou mesmo como ferramenta para distrair o povo com cultura enquanto questões mais importantes estão em jogo. Isso existe desde a Roma antiga e só continua existindo porque ninguém questiona.
    Pode ser também que o seu ponto de vista esteja mais correto, e, seja inocência pensar assim ou não, jogo político e cultura nada tenham a ver um com o outro.
    Minha intenção não era, na verdade, acusar um governo de fazer a política do pão e circo, mas levantar mesmo esse pensamento e essa discussão. Levantar a discussão eu consegui. Obrigada pelo comentário. Acho que mais importante do que delimitar um ponto de vista errado ou certo, seja a existência dessa discussão.

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  3. Bom. Primeiramente, só deixando claro, minha intenção não é cutucar ou provocar ninguém. Gostei muito do post e só comentei porque discordei desse pequeno trecho e acho que as pessoas deveriam comentar mais em blog.

    Então, discordo também quando você diz que essa virada tem uma programação 'fortíssima'. Bauru já teve em sua virada, com esse mesmo prefeito no cargo, shows de Nação Zumbi, Demônios da Garoa, Otto, Tom Zé, Cordel do Fogo Encantando, Ultraje a Rigor, Céu, entre outros nomes que, na minha visão, têm muito mais força que os desse ano. Aliás penso que, infelizmente, a virada está mais fraca não só em Bauru, mas em toda a região.

    E bem, no ano passado realmente não aconteceu a virada oficial, que é patrocinada pelo governo do estado. Mas o prefeito se esforçou para fazer uma virada independente, com investimento municipal. O que também nos faz pensar que esse negócio de "ano de eleição" não fez tanta diferença assim.

    Não podemos olhar tudo o que é da área cultural, muito menos uma virada dessas cheia de atrações de qualidade, que não apela para o popular como uma distração ao povo. E sim torcer para que eventos como esse aconteçam todo ano e cada vez mais.

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  4. Ô, querido. Não vi que você tinha respondido, haha.
    (Desculpe te chamar de querido, mas é que não sabendo quem você é fica tão mais sonoro...)
    Bom, o que eu penso de tudo isso:
    1) Você é um cara sensato, tou adorando conversar com você. Obrigada por gostar do meu post e por discordar de mim, também. A gente precisa dessas coisas :)
    2) Discutir quais atrações são melhores ou piores não vai tirar a gente do mesmo lugar. A disussão de verdade não é essa... (Mas, na boa, Ballet Stagium (!!!), Racionais, Funk Como Le Gusta, Leo Maia, Grooveria, Made in Brazil, Clube do Jazz, Aline Calixto, Zé Renato... Tudo na mesma virada (!) Enfim, são gostos e opiniões pessoais).
    3) Acho que é aqui que eu sempre quis chegar: essas pequenas doses de cultura, seja em forma de Virada oficial ou alternativa, não são o suficiente para a demanda de cidade nenhuma. E podem, sim, ser usadas como propaganda política, já que são eventos isolados durante o ano que chamam a atenção do povo. Contenta-se com pouco, enquanto o que deveria acontecer em decorrência desses eventos é uma popularização cada vez maior da cultura. Vamos combinar que isso não acontece de verdade, e não acontece porque ninguém tá ligando muito. Todos ficamos muito felizes por termos eventos isolados e não paramos para pensar que deveríamos ter muito, muito mais. O fato de não pensarmos facilita para os governantes, que não se sentem na obrigação de nos oferecer mais do que isso.
    Eu frequento o Teatro Municipal diariamente, e acho que tem muitos projetos feitos e apoiados pelo município que merecem muitos aplausos, vide os trabalhos realizados pelo Departamento de Ensino às Artes. Mas quanto à programação cultural ainda há muito o que desenvolver e melhorar.
    Quanto à discussão de ser ou não ser ano eleitoral e blablabla... Bom, continuo achando que o fato de o governo municipal ter conseguido trazer a Virada oficial pro município ("Ó meu Deus, fomos agraciados com a Virada Cultural Paulista!") chama a atenção, sim, e dá a impressão de grandeza pro governo vigente, que conseguiu crescer a imagem de Bauru no âmbito Estadual, trouxe a Virada Cultural Paulista pra cá e não precisou fazer uma Virada alternativa. E isso é propaganda pró-governo, seja intencional ou não.

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