terça-feira, 22 de maio de 2012

Chapei por tabela

Carolina Rodrigues

Fazia muito tempo que eu não ouvia aquelas músicas. “É necessário sempre acreditar que o sonho é possível, que o céu é o limite e você, truta, é imbatível”. Há alguns anos, me interessei pelo rap e passei um longo período pesquisando, tanto que cheguei a fazer um post sobre isso: "O rap é assim, truta, saca só...".

Então, há algumas semanas, fiquei sabendo que Bauru receberia na Virada Cultural nada mais, nada menos que Racionais. Fiquei muito, muito empolgada. Mesmo. Nunca imaginei que fosse ter a oportunidade de ir a um show deles, ainda mais de graça. 

Decidi que ia, nem que fosse sozinha, contrariando várias opiniões preconceituosas de que seria perigoso, de que eu tinha que ter cuidado e blá blá blá. Puro preconceito. Cheguei bem antes do show começar e o Parque Vitória Régia ainda estava vazio. Resolvi, então, guardar um bom lugar, que desse pra enxergar bem e curtir o show sem ficar muito apertada. Esperei por quase duas horas, com uma ansiedade gostosa, que há tempos não sentia. Perto da meia noite, o lugar começou a encher. Como já era de se esperar, em poucos minutos, estava cercada de gente, de bonés de aba reta e de muita, muita fumaça de maconha. Realmente, me disseram que ia “lotar de mano” e lotou. E por que seria diferente? A cultura rap é assim e sempre vai ser. E digo mais: já fui a muita festinha de “playboy” (já que é pra denominar classes) que também estavam lotadas de fumaça de maconha. Só por que o boné é de marca a maconha passa despercebida? Repito, puro preconceito.

Foi aí que eu comecei a refletir. Reparei um pouco mais e vi o quanto o rap está atingindo, mesmo que lentamente, pessoas de diversas classes sociais, de várias idades, com diferentes ideais. Vi um pai de família ali no canto, com seu filhinho no colo. Uma senhora encostada ali na árvore, toda “empacotada” por causa do frio. E eu. Uma simples admiradora do trabalho dos Racionais, que nunca teve contato direto com a cultura rap, mas que sempre se interessou. Repito, por que seria diferente?



Enfim, começou. Um palco todo iluminado e esfumaçado, fumaça essa que se confundia com o beck que estava queimando bem ao meu lado. Uma plateia animada, envolvente e sincera. Vozes que saíam naturalmente. Foi como se cada um ali estivesse inserido nas letras. Não tinha como ficar parada. Deixei-me levar pelo movimento da multidão e, a cada batida do grave na caixa de som, sentia também meu coração batendo mais forte. “Um por amor, dois por dinheiro, três pela África, quatro pros parceiro que estão na guerra sem medo de errar, quem quiser falar, só Deus pode julgar”.

É claro que estava grudada com a máquina, disposta a registrar todo e qualquer momento do show. Ansiedade pelas músicas mais famosas. Percebi, ao fundo, o começo de uma das músicas mais nostálgicas para mim. Liguei a máquina bem rápido e não resisti...





Mas foram necessários apenas mais 15 minutos e a energia da plateia para que eu desencanasse da máquina e registrasse os momentos somente dentro de mim. No total, foram 130 fotos e muitos ótimos registros internos. O show continuou, tranquilamente, sem problemas. E foi aí que o chão tremeu. “Fé em Deus que ele é justo, ei irmão, nunca se esqueça”.

A partir de então, a plateia não parou mais. Seguiram-se “Vida Loka II”, “A Vida é Desafio” e todas as outras que não poderiam faltar e que, você, fã de Racionais, sabe muito bem quais são. 

Admito que, com o passar do tempo e após me entregar à boa energia da multidão, chapei por tabela. Definitivamente, guardei a máquina, bem como todas aquelas opiniões preconceituosas, que fizeram com que eu sentisse até medo de ir ao show. Sei que não sou negra, nem “mano”, e nenhum desses estereótipos fixados pela sociedade em relação à cultura rap. Sou simplesmente alguém livre o suficiente para escolher qual música escutar e a qual show ir. 

Para finalizar em grande estilo, Mano Brown fez um breve discurso, informal mas intenso, ressaltando a importância do rap e acabando com o tal do puro preconceito de que o rap está relacionado com violência e marginalidade. Foi aí que “Jesus Chorou”.

De fato, não vi nenhuma briga, nenhum marginal, nada. Talvez devido justamente a essa “calmaria” que, ao ir para a fila da imprensa, me deparei com a cavalaria da polícia em meio à multidão. Sim, a polícia, sem ter com o que se preocupar, resolveu jogar bombas de gás e espalhar os fãs e jornalistas que queriam, só e simplesmente, conversar, entrevistar e tirar fotos com os Mc’s. Incoerente, não? Pela última vez, repito: puro preconceito. Mas deixa isso pra lá. Não gastemos as valiosas linhas desse blog com isso. A vida é loka mesmo...

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