segunda-feira, 9 de abril de 2012

Saída em tempos de crise

Carolina Ito
 Disco "Paêbiru", de Lula Cortês e Zé Ramalho, é uma relíquia
da produção independente no Brasil  

Já dizia Caetano nos versos de Love, Love, Love que “o Brasil tem ouvido musical”. Essa música me fez pensar que os ouvidos dos produtores e músicos têm que estar ainda mais apurados para atender às necessidades do exigente público brasileiro que assiste a uma série de transformações nas últimas décadas.

A partir dessa divagação, penso o quanto a indústria da música nacional teve (e tem) que se reinventar para driblar as crises e, em certos casos, oferecer alternativas diante da velha oligarquia das “quatro irmãs” da indústria fonográfica (Universal, Warner, Sony e EMI, só para citar).

No final dos anos 70 e início dos anos 80, a crise econômica e o aumento da inflação obrigaram as gravadoras a enxugar sua lista de artistas e por consequência, certos gêneros musicais que não fulguravam tanto no mainstream foram jogados para escanteio. Mas a década de 1990 foi a que mais abalou a indústria fonográfica por conta da recessão econômica e do avanço da pirataria. 

No auge das fitas cassetes com música pré-gravada e, posteriormente, com a chegada dos CDs e MP3 players, o público já não está satisfeito em pagar o preço exigido pelo mercado e os artistas passam a resistir ao modelo único de produção musical.

A perda de legitimidade e de valorização da obra são problemas frequentemente relacionados à reprodução e venda de produtos “fora da lei”. A atual ministra da cultura, Ana de Holanda, anuncia o apocalipse: a pirataria pode “matar a produção cultural brasileira”.

Chega a música independente

Não sei o que a ministra quis dizer com “produção cultural brasileira”, mas, pensando no setor musical, acho que ela teve uma visão um tanto limitada e elitista do mercado. A indústria fonográfica tradicional pode estar em crise, mas é inegável que novos modelos de negócio estão surgindo para lidar com o problema. Como exemplo, cito a produção de música independente que surgiu no Brasil bem antes da evolução da internet.

Em 1975, Lula Cortês e Zé Ramalho lançaram o “Paêbiru”, um dos primeiros discos feitos de maneira independente, contando com a parceria de uma pequena gravadora pernambucana, a Rozemblit. O selo Lira Paulistana, criado em 1979, também foi importante no cenário independente agregando nomes como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Ira! e Titãs.

Diante do lucro excessivo em poder das gravadoras internacionais, Lobão (já em 1999) lançou seu famoso disco “A vida é doce” que foi vendido em bancas de jornal pela metade do preço dos discos convencionais.

Com o crescimento do mercado independente, foram criadas associações para organizar o setor. No Brasil, a ABMI (Associação Brasileira de Música Independente) reúne mais de cem gravadoras e pequenos selos, entre elas, a Biscoito Fino (que lançou álbuns de Tom Zé, Mônica Salmaso, Chico Buarque, Rita Lee...) e a Coqueiro Verde Records (Mundo Livre S/A, Karina Buhr, Os Mutantes, etc).

Do indie a Michel Teló

É interessante notar que a indústria da música hoje comporta diversos arranjos produtivos, embora haja predomínio das grandes gravadoras. Ao mesmo tempo em que assistimos à transnacionalização do fenômeno Michel Teló, artistas brasileiros do cenário alternativo são “descobertos” quase acidentalmente em terras estrangeiras como foi o caso de Tom Zé que saiu do ostracismo pela intervenção de David Byrne, ex-integrante do Talking Heads.

Sendo mais radical, é possível (ou, pelo menos, discutível) que artistas se promovam sem nenhuma gravadora, como ocorre nas produções do tecnobrega paraense. Mas esse assunto fica para outra postagem.

Para concluir, a produção independente no Brasil pode ser uma resposta dos movimentos de contracultura e do espírito faça-você-mesmo que hoje é vendido como uma marca até no mainstream. Ainda que haja essa contestação política, a música independente existe, na verdade, porque o mercado está cada vez mais segmentado e oferece possibilidades reais de o artista sobreviver sem depender das grandes empresas.

Um comentário:

  1. Já passou da hora do mercado se ajustar aos novos tempos. Um ou outro nicho do mainstream já está experimentando alguma coisa, enquanto banda independentes já estão vários passos na frente com sites como a Trama Virtual que disponibiliza álbuns completos e de graça, bancados por algum patrocinador.
    A parte boa dessa crescente facilidade dos artistas viverem sem se preocupar com um grande selo é o aumento da oferta e da liberdade cultural por preços bastante acessíveis, quando não de graça.
    As gravadoras que se cuidem, se não se ligarem logo serão cada vez menos necessárias.

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