segunda-feira, 23 de abril de 2012

Fino do fino

Amanda Lima

"O Fino do Fino"
Elis Regina e Zimbo Trio (1965)
A constatação de que existe muita música boa fora da loucura dos meios massivos permite emprestar o título do disco O Fino do Fino, segundo ao vivo de Elis e primeiro do Zimbo Trio.

Os músicos aprenderam de vez a compor, gravar e divulgar suas produções seguindo suas próprias concepções. Desde que os recursos digitais baratearam e facilitaram os processos de gravação, as grandes gravadoras, que priorizam o lucro e descartam artistas cuja obra não é rentável, competem com um cenário independente de grande resistência e cada vez mais consolidado. 

Se o desenvolvimento do blues e do jazz, por exemplo, era tido como independente por abrigar artistas ignorados pelas grandes gravadoras, esse conceito hoje se remonta e adquire novos formatos e interpretações antes desconhecidas. Em comparação ao processo citado, ocorrido no início do século XX nos Estados Unidos, o Brasil assistiu, entre os anos 70 e 80, à crise da indústria fonográfica. O abalo, entretanto, restringiu-se ao que se tinha no mainstream, enquanto as produções autônomas ganhavam recursos, força, espaço e público. 

Já não é inédita a criação de um cenário musical independente que abandonou a marginalidade para habitar de vez o mercado e englobar artistas de qualidade indiscutível. Nesse contexto, convivem produções finamente realizadas por gravadoras independentes e a criatividade de artistas que, com seus próprios recursos, muitas vezes limitados, são inteiramente responsáveis pela criação e divulgação de suas obras.

Autonomia musical na internet

Pedro Bonifrate, músico integrante da banda Supercordas, tem também um projeto solo, cujo terceiro disco exemplifica muito bem esse espírito criativo e empreendedor dos músicos independentes. Um Futuro Inteiro, lançado em 2011, foi produzido na casa do próprio artista. "O processo de gravação foi muito simples, com notebook e uma placa de som de dois canais, alguns microfones e instrumentos. Não tinha recursos de estúdio, o que acabou fazendo com que fosse preciso usar bastante recurso digital para fazer o disco", conta Bonifrate.

Apesar de não se afirmar como um entusiasta da distribuição gratuita dos discos na internet, Pedro Bonifrate é um dos muitos artistas que vê na plataforma digital um recurso para que seu trabalho obtenha maior alcance. Com uma visão talvez mais realista de um meio em que não há restrição de estilo ou quantidade de material, Bonifrate constata que "algumas pessoas encontraram um jeito de viver dentro desse mercado, mas é uma coisa bem difícil. Você tem que criar o seu próprio público, organizar o seu próprio trabalho, o que torna o artista um pouco empresário também."

Por circunstância da ocasião, ouça abaixo uma prévia do trabalho de Pedro Bonifrate. Um Futuro Inteiro pode ser baixado na íntegra no através da página do músico no Bandcamp.


Existem muitos outros artistas pertencentes a essa mesma realidade e, na função de recomendá-los, o Play This Beat já resenhou alguns de seus discos e destacou suas qualidades musicais. Basta checar postagens mais antigas para conhecê-los.

A presença dos selos independentes é igualmente marcante para a configuração da música independente. Há mais de cem gravadoras associadas à ABMI (Associação Brasileira de Música Independente) que se preocupam com a divulgação de música popular consistente, um patrimônio cultural valiosíssimo.

Leia também: Saída em tempos de crise, por Carolina Ito.

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