sexta-feira, 23 de março de 2012

"Querido diário"

Amanda Lima

Chico Buarque durante ensaios da turnê (Foto: Carol Mendonça)

Vinte e dois de março. A ressaca de copos de cerveja e de mais uma vitória do Corinthians me deu bom dia com algumas pontadas no estômago. Depois de quase meia hora lutando contra o sono, criei coragem para levantar, jogar algumas roupas dentro da mala e ir até a rodoviária. Era chegado o dia, depois de pouco menos de três meses, de estar na presença do maior compositor brasileiro. 

Cochilos ansiosos e algumas páginas mal lidas encurtaram a distância entre Bauru e a capital. Debaixo de sol a pino, fiz, como em tantas outras ocasiões, o percurso que separa a Barra Funda de Guarulhos. O terminal só me fazia lembrar de Barafunda, canção que certamente faria parte do repertório do show. 

Ignoradas as críticas à nova fase de Chico, o público paulistano lotou o HSBC Brasil desde o início da passagem do compositor pela capital, em primeiro de março. Procurei me manter distante de qualquer informação sobre os espetáculos até que chegasse o dia de tirar a prova. 

As mesas próximas ao palco eram repletas de baldes com garrafas de champanhe. A minha, quase no fundo da casa de espetáculos, comportava apenas guardanapos e um cardápio. Sentei-me, olhei para o palco e previ a imagem que eu veria dali a poucos minutos. A sede me fez abrir despretensiosamente o menu. Depois de algumas contas e considerações, um petisco forrou o estômago e um brinde de Coca-Cola inflacionada em taças abriu a noite.

Joias, sapatos altos e paletós engrandeciam um cenário que, no fundo, bastaria com um banco, um violão e um grande homem. Ainda assim, Luiz Claudio Ramos, Wilson das Neves, Chico Batera, Jorge Helder, Marcelo Bernardes, João Rebouças e Bia Paes Leme ali, materializados sobre o palco, elevavam a níveis inacreditáveis qualquer noção de genialidade musical que eu já havia conhecido a tão poucos metros de mim. 

Estive em transe. Demorei – e creio que ainda peno – para acreditar que era mesmo Chico Buarque de Hollanda quem entrava no palco com passos magros, sorriso largo no rosto e aquele belo par de olhos claros. A qualidade impecável do som e da iluminação faziam das canções peças inteiras. Em Nina, porém, a voz de Chico foi indelicadamente interrompida pela queda de energia, causada por uma forte chuva. Foram quinze minutos de escuridão até que os geradores permitissem a continuação do show. 

Chico e a banda entraram outra vez e retomaram a apresentação sem uma explicação, piada ou conversa dessas só para quebrar o gelo. Tive uma espécie de desapontamento e até iniciou-se um fenômeno de desmistificação do ídolo. Que durou pouco, é verdade. Depois de algumas canções, Chico despediu-se e deixou o palco sem tocar a mesma Barafunda daquela manhã. Uma afronta eliminada logo depois, com o bis. É impossível não ser agraciado com um sorriso do gênio.

Fui enganada outra vez, no melhor dos sentidos, pela segunda volta de Chico ao palco, ovacionado pelo público. Como o namorado que volta ao portão para repetir a despedida, outro bis selou nosso 'encontro'.

Levantei ao fim do espetáculo pensando ter como meus os gritos histéricos de fãs durante o show. “Lindo!”, “Casa comigo!”, “Toca uma para mim!”. Extasiada entre pessoas amontoadas na porta de saída, contive a minha vontade de dar pulos e colocar as mãos no rosto, desacreditada das horas anteriores. 

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