terça-feira, 13 de março de 2012

O luar das nove

Gabriela Passy

Ainda são nove horas. Calma, você não precisa começar a escrever agora. Eu sei que há outras coisas que te preocupam e também sei que elas parecem maiores do que são. Mas ouça. Ouça essa música.

Clair de Lune by Claude Debussy on Grooveshark

Acalme-se. Deixe os acordes entrarem em você devagar, assim mesmo. Dá tempo de respirar. Respirar o que? Às vezes parece que me falta o ar. Mas ouça. Ouça o quanto de ar e espaço tem aqui. Por entre os compassos há um infinito de espaço. Do que você está reclamando?

Um vento começa a soprar de repente pela sua janela, quando você percebe que já são mais de dez horas e as tarefas ainda estão todas inacabadas. Como se algo disso importasse. Você agora está ficando mais agitada; e, que engraçado, parece que a música te acompanha. Como pode ela, logo ela que é feita só de papel e notas, saber o que você pensa?

Mas você sabe como é. Você começou a viajar, não foi? Bem na hora em que as notas começam a entrar umas por cima das outras. Você foi para longe e nem percebeu. Longe, no Alasca, em algum bosque, sei lá. Ou quem sabe o que está na sua cabeça agora não é o clarão da lua, que ilumina tudo lá fora? Pena que você não pode vê-lo; está nublado hoje. Já são onze horas e você ainda não conseguiu nada.

Nublado é tudo o que não cabe agora. Eu te conheço, você deve estar cansado do cinza, não é? Você quer cor. Você quer alguma solução, algo que resolva tudo de uma vez só. Dois, quem sabe três coelhos com uma cajadada só. Vem comigo, vamos encontrar algum lugar melhor. Por que as coisas nunca podem ser do jeito mais simples?

Você percebe agora que sempre foi tudo muito simples. O final e a solução vêm na forma mais bela de todas. Tão bela que é possível sentir o perfume de cada uma das notas. Calma e serena, o fim chega como se ainda fossem nove horas. É, ainda são nove horas.

Clair de Lune 


Parte da Suíte Bergamasca do compositor-gênio-francês-maravilhoso Claude Debussy, Clair de Lune foi composta em 1905, durante um momento de extrema solidão de seu compositor, que observava a lua da sacada de seu apartamento. A história da sacada, da lua e da solidão podem ser muito bem uma lenda cultivada através do tempo, mas vamos combinar que é completamente cabível. O moço sofrido olhando pela sacada sempre me vem à mente, de um jeito ou de outro.

Quem nunca tinha ouvido nem falar de Clair de Lune e identificou alguma parte ("Acho que conheço isso de algum lugar") pode tê-la ouvido em filmes como Onze homens e um Segredo e Crepúsculo ou então em alguma das várias novelas que se utilizaram da beleza e do climão que só a obra-prima de Debussy é capaz de provocar.

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