sexta-feira, 9 de março de 2012

The Man Who Can't Be Moved

Vanessa Souza


Fev. 27:
Já se passou uma semana. Eu tenho a minha loja aqui nesta rua há dez anos e nunca algo assim tinha acontecido antes. Esse homem está acampado do outro lado da rua já há uma semana e não parece ter planos de sair dali. Passei alguns dias só observando o sujeito: bem vestido, limpo, sem sinais de embriaguês. Ele tem até um saco de dormir (os mendigos do bairro devem estar morrendo de inveja). Sim, voltei ao lugar à noite para ver se ele ficava lá depois de o comércio fechar. A cada dia ficava mais curioso. O homem parecia ter uma boa condição financeira e não precisar pedir esmola.
Daqui eu conseguia ver direitinho a rotina do ‘coitado’: para cada pessoa que andava pela calçada, ele esticava a mão e mostrava um papel... ou uma foto, sei lá. Perguntava algo para o pedestre e parecia nunca ter a resposta que procurava. Quando se cansava de fazer isso, começava a tocar violão. Era difícil ouvir a música por causa do barulho da rua. Queria entender o motivo que o prende a essa esquina.

Mar. 3:
            Mais três dias se passaram e o homem continua ali. Hoje, no entanto, aconteceu algo que confirmou minhas suspeitas e que, ao mesmo tempo, foi muito estranho: uma velhinha soltou algumas moedas perto dele enquanto apreciava sua música. O homem parou de tocar e cantar e devolveu as moedas. Ele realmente não precisa de dinheiro. Mas qual seria o motivo pelo qual ele está aí? Vou tentar falar com ele amanhã.

Mar. 4:
           Atravessei a rua para falar com o sujeito estranho. Por um momento, fiquei prestando atenção à letra da música que ele cantava. Logo que terminou, aproximei-me e perguntei se era uma composição própria. Meio envergonhado, ele disse que sim. Aproveitei, então, para perguntar se ela tinha alguma coisa a ver com ele estar ali há uma semana e meia praticamente sem se mover. Mais uma vez ele respondeu positivamente.
          Quando eu ia começar a explicar que o vejo todos os dias e tenho a maior curiosidade de saber o motivo por ele estar lá, ele esticou o braço com uma foto nas mãos. Logo disse, “Se você vir essa garota, você pode dizer a ela onde eu estou?”. Não entendi nada e perguntei por que. “Dois dias depois de terminar com ela, eu fui roubado no caminho para casa e me levaram o celular e o notebook. Maldita tecnologia, nunca cheguei a decorar o número dela”. Sugeri que ele usasse meu computador para tentar um contato, mas ele não lembrava nenhuma de suas senhas. Perguntei se ele já foi  à casa dela e a resposta foi que ela tinha acabado de se mudar. “Tudo o que me resta é ficar aqui, na esquina onde nos conhecemos, esperando que ela passe por aqui de novo. Ei, você, conhece essa garota?” e mostrou a foto para outro pedestre.

Mar. 6:
       Cheguei hoje à minha loja em meio a um tumulto: um policial foi tentar tirar o homem da sua esquina. Ele reagiu, claro. Quando me aproximei, ele estava contando sua história ao guarda e às várias pessoas que pararam para escutar. Notei uma mulher alta, de óculos, anotando palavra por palavra do que era dito. Não demorou até que ela se aproximasse e fizesse algumas perguntas para os protagonistas. Ah, esses jornalistas. Nunca perdem uma chance de arrumar pauta.

Mar. 10:
           O homem desapareceu. Não faço idéia do que aconteceu com ele depois do fim de semana. Talvez tenha desistido de esperar. Ou então o policial o tirou dali no fim da bagunça que foi a TV local querendo gravar a história dele na sexta. Que estranho é não ter a distração de o observar quando o tédio aparece.

Mar. 11:
          Estava entretido hoje de manhã tentando resolver as palavras cruzadas do jornal. Parei depois de travar no número 9 horizontal. Olhei pela janela por um segundo e, para a minha surpresa, lá estava o homem que ninguém conseguia mover novamente sentado em sua esquina. Estava quase saindo da loja quando vi a garota da foto se sentando ao lado dele. Desta vez não havia saco de dormir, só um violão os acompanhando.

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