domingo, 12 de fevereiro de 2012

“Verde que te quero rosa”

Amanda Lima


Por trás de cada serpentina enroscada nos pés de passistas, de brilhos e adereços pendurados em corpos suados e de incansáveis puxadores, estão a dança e o batuque que uniram maxixe, lundu, choro, jongo e tantos outros ritmos e deram origem ao que se tem por samba.

Lundu, primeiro ritmo afro-brasileiro
(Lundu, de Rugendas, 1835)
Rio de Janeiro, capital do país na época, viu florescer a ginga de raízes africanas que eclodiu, consagrou artistas, tomou ruas, avenidas, sambódromos, adquiriu variações, subgêneros e legitimou quiçá a maior representação da cultura brasileira. E, numa época em que carnaval envolvia ranchos e cordões, muitos pares de pernas agitavam-se sobre o solo de um tal Morro de Mangueira.

Entre eles, esticava os joelhos o mangueirense Carlos Cachaça, que cresceu no morro, era rosto presente nos blocos carnavalescos e acompanhou a origem das primeiras Escolas de Samba. Toda a boemia e o samba entre os quais ele vivia foram então compartilhados com um rapaz chamado Angenor de Oliveira, posteriormente eternizado como Cartola. Juntos a Saturnino, Zé Espinguela, Arturzinho, Massu, Antônio, Chico Porrão, Homem Bom e Fiúca, eles criaram, em 1925, o Bloco dos Arengueiros da Mangueira, em cujo núcleo encontravam-se os futuros fundadores da Estação Primeira de Mangueira, surgida três anos depois.

Cartola teve muitos de seus sambas gravados na vozes de Francisco Alves, Mário Reis, Sílvio Caldas e Arnaldo Amaral na década de 1930. Foi também autor de diversos sambas-enredo da Mangueira, parceiro de Noel Rosa e declaradamente reconhecido por ninguém menos que Heitor Villa-Lobos.

Fita Meus Olhos, de autoria de Cartola, foi samba-enredo campeão da Estação Primeira em 1933:


Cartola (1974)
Considerado por muitos o maior sambista de toda a história da música brasileira, o músico viveu, apesar de grande reconhecimento, uma série de percalços. Distante da música, desapareceu por sete anos e ocupou cargos modestos até retornar definitivamente com a gravação de seu primeiro disco solo em 1974, aos 65 anos de idade. Homônimo, o LP reuniu como faixas autorais as canções Amor Proibido, Tive Sim, Alegria e Acontece, além de parcerias. Era o primeiro de outros três solos.

O segundo veio em 1976, também com o nome de Cartola. No ano seguinte, Verde que te quero rosa foi, assim como os álbuns anteriores, aclamado pela crítica. Em 1979, um ano antes de sua morte, foi lançado o LP Cartola - 70 Anos.

Em Documentário Inédito (1979), uma entrevista à Rádio Eldorado foi lançada sob a forma de LP. Entre as canções, Cartola fala sobre a sua vida, a carreira e as próprias composições. Na primeira faixa, Que sejam benvindos, ele explica o porquê do apelido e fala sobre seu primeiro disco:

Que Sejam Benvindos by Cartola on Grooveshark

Não foi Cartola quem marcou a Estação Primeira de Mangueira nem o contrário. Eis que o sambista e a Escola que ajudou a fundar construíram suas histórias complementando-se, com algumas pitadas de incerteza e saudade. Foi no morro que encontrou Dona Zica, sambista da velha guarda que viveu ao seu lado até sua morte, em 1980.

Com maestria, ele contribuiu imensamente para um gênero musical que, com a radiodifusão, tomou o país e levou-o ao resto do mundo.

Cartola e Dona Zica, sua grande musa, com quem casou-se em 1954.
Não foram poucos os tributos ao mestre Cartola. Ney Matogrosso, Beth Carvalho e Claudia Telles são apenas alguns dos vários nomes que regravaram canções do artista. E, ainda hoje, quando o mês não é fevereiro, os sambas-enredo cedem lugar aos sambas-canção.

Roberta Sá, no DVD Pra Se Ter Alegria, recebeu Ney Matogrosso para interpretar Peito Vazio. Assista ao vídeo:

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