terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O batom vermelho de Céu

Por Carolina Ito

Hoje é, oficialmente, o dia de lançamento do novo álbum da Céu, mas muitos jornais e portais da internet já publicaram algo sobre o disco comentando os detalhes da produção, participações especiais, curiosidades, etc. (Ah, você também pode conferir um apanhado disso tudo na página oficial da cantora no Facebook – a clipagem está muito bem feita).

Como esses textos trazem informações que se encontram e acrescentam uma ou outra coisa, decidi fazer uma resenha experimental. Uma tentativa de buscar sentidos e compor histórias sobre as canções, como fazem os tiras daquele filme do Tarantino, o “Cães de Aluguel” (1992). Logo nas primeiras cenas, homens sisudos de terno e gravata, divagam por longos minutos sobre o significado da música Like a Virgin, da Madonna (sim, coisas bizarras podem surgir daí).

Depois de três anos, ela que andava tão Vagarosa, decide lançar um disco de nome engraçado, que vem pra expurgar demônios e brincar com os descompassos do cotidiano. Caravana Sereia Bloom é o nome dessa brincadeira em que vários personagens participam e se revezam no comando do jogo.

Arte: Carolina Ito
A música “Retrovisor”, para mim, é a que costura todas as faixas do disco, atribuindo uma espécie de identidade contígua aos personagens fragmentados. “Meu batom vermelho vai me enfeitar/ Não preciso de retrovisor pra não borrar”, diz o verso do refrão. Aqui, quem canta é uma mulher que busca refúgio na simples fantasia de pintar os lábios, dançando ao som de um karaokê fuleiro. A cena de glamour decadente é embalada por batidas de tecnobrega e pode ser vista no videoclipe (abaixo) em que a mulher de batom vermelho é interpretada por Céu.

Engraçado como um batom - ou uma cor - pode se valer de toda a feminilidade e autoconfiança que alguém procura resgatar... Um batom ou uma fantasia como a do Palhaço que aparece na versão de Céu para a canção homônima de Nelson Cavaquinho. O palhaço é triste e não tem tempo de pensar em desilusões. “Volta, que a platéia te reclama...”. O palhaço é triste e se pinta para não esquecer que ainda é um palhaço. “Faça a platéia gargalhar/ Um palhaço não devia chorar”, diz o superego ao longe. Mais uma metáfora sobre nossas máscaras, mergulhada em um arranjo musical que caberia perfeitamente numa peça de teatro.

Os lábios pintados de vermelho nas músicas “Retrovisor” e “Palhaço” reaparecem descoloridos em “Amor de Antigos”, uma música que fala de memórias que amarram a boca “feito vinho de caju”. Essas memórias são revividas sinestesicamente ao som de uma guitarra que lembra os filmes Western do tempo de John Wayne. Saudade que beira o saudosismo e vice-versa.

Do cenário faroeste para a pista de um night club, temos a música “Streets Bloom” com sua guitarra setentista. Da pista para o balcão do bar, temos “Fffree”, com um baixo arrepiante e melancólico. Muitos outros cenários fazem parte desse jogo cinematográfico. E o verso declamado num “Baile de Ilusão” qualquer, sintetiza o que Céu quis dizer com suas metáforas em Caravana Sereia Bloom: “Me colori para lembrar o que vivi”. 


2 comentários:

  1. ótima resenha...Céu é demais, e vc entendeu o que está mostrando no disco!!!

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  2. Fiquei com vontade de ouvir!amei a resenha e a ilustração =D parabéns!

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