quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Escola de Malandro

Carolina Baldin Meira

Impossível pensar em Carnaval e não se lembrar da figura de chapéu, charmosa e de sorriso torto. O clássico malandro engambela com caprichos de rapaz solteiro, anda cismado mas é um bom elemento. É quem ri melhor, consegue esquecer e perdoar, encontrar-se e perder-se em cada esquina da vida.


Prazer em conhecê-lo 


Noel Rosa em 1930 (Créditos:  catracalivre.folha.uol.com.br)
Frágil, mirrado, mas de personalidade marcante. Foi na primavera do Rio de Janeiro, em 11 de dezembro de 1910, que Noel Rosa veio ao mundo, aos trancos e barrancos de um parto difícil realizado em um chalé na Vila Isabel. O garoto nasceu com desenvolvimento limitado e sofreu uma fratura no maxilar inferior, desproporção facial que o acompanhou por toda a vida. Teve uma infância saudosa, foi um menino espuleta em meio à confusão de amigos, balões, pipas e escaladas nos bondes. 

A alma musical começou a ser cultivada neste período: nos saraus realizados em sua casa, ouvia atentamente ao pai tocando violão, a mãe com o bandolim, a madrinha a tocar o piano e sua tia ao violino. Sua mãe, dona Martha, foi quem o iniciou na música ao ensiná-lo a tocar bandolim. Daí para frente, o menino nunca mais abandonou a música: Noel Rosa se tornou um dos maiores sambistas, cantores, compositores, bandolinistas e violinistas que o Brasil já prestigiou. 

Jovem debochado, Noel era cheio de graça e malícia, e fez do cigarro, da cerveja e dos bondes grandes parceiros do caos criativo em que surgia suas composições. Fazia da música, uma poesia e vice-e-versa. Passava as madrugadas a escrever no Café Vila Isabel e recebia pedidos e recados para compor serenatas. Aos 18 anos, fez sua primeira aparição pública no Tijuca Tênis Clube.

Samba-canção: nem tudo é Carnaval 

Em meio à modernização do samba urbano carioca, um subgênero musical ganhou destaque e teve seu auge nas décadas de 1930 e 1940. O samba-canção também era conhecido como “samba de meio do ano”, ou seja, aquele escrito fora do período de Carnaval. Entre os compositores deste subgênero, os mais famosos foram Noel Rosa, Ari Barroso, João de Barro e Ataulfo Alves.

Foi em 1929 que Noel Rosa estourou nas rádios com o clássico “Com Que Roupa?”. A canção caiu no gosto popular por retratar com graciosidade o Brasil da época, de um povo na miséria e repleto de dificuldades, o chamado “Brasil de Tanga” por Noel. A expressão "com que roupa" se tornou parte do vocabulário carioca e o sucesso surpreendeu seu autor, que, antes de sua explosão, havia vendido a composição por 180 mil réis ao cantor Ignácio Guimarães, tornando-o dono do samba mais cantado e tocado no Brasil. 

No famoso Carnaval da Vila Isabel, era integrante do bloco Faz Vergonha, que, segundo amigos, é nomeado assim por causa do comportamento brincalhão de Noel, que sempre fazia os outros passarem vergonha.

Fita Amarela


Mas nem tudo era folia. Em meados dos anos 30, o jovem começa a perder peso e demonstrar fortes sinais de cansaço, mas nem por isso abandona as madrugadas boêmias na rua. Consultado pelo médico da família, recebe o diagnóstico: a tuberculose provocou lesão no pulmão direito e avanço da doença também no esquerdo.

Quando eu morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela.”

Noel Rosa faleceu no dia 4 de maio de 1937, aos 27 anos, nos braços da esposa Lindaura, na mesma casa em que nasceu. O “Poeta da Vila” deixou para trás uma vida de talento, simpatia, inúmeras composições, amores e muito sucesso. Todo carnaval tem seu fim, mas o samba... Ah, o samba é imortal. 


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