quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Cerveja com sétima menor

Amanda Lima


Samba Do Lago by Breculê on Grooveshark

Vai, que a harmonia quer deixar a introdução entrar no verso, romper o silêncio. Melodia dançante pede espaço e preenche compassos com cadência inigualável. Cotidiano em fusas mede o tempo, metrificado. Domingo, rede, cerveja. Tudo cabe entre acordes vivos, ora consonantes, ora dissonantes.

A moçada esquenta os bancos e se prepara para alongar a tarde com ritmo empolgante e simpatia. Quando o samba começa, a noite se intimida e espera um pouco mais para cair. Telefone mal se escuta, alguém avisa que Pedrinho chega lá para o fim do mês. Quintal vira terreiro para passistas de chinelo ou descalços saltitarem de um lado para o outro.

Sorrisos se desprendem entre estrofes, copos se levantam e corpos negam-se a ficar parados. Descanso é para depois. A capella, quem veio canta. Deixa para lá quem não vier. A orquestra rege-se pelo alto, maestros riem, bebem, falam, gritam, batucam, pulam, abraçam. A roda se abre para o bamba golpear o ar de som. Assente a moçada com doses de cachaça branca e ponha-se a sambar.

Roupa no varal, carne lançando fumaça, cachorros a latir, vizinhos a gritar, sempre alguém pronto a batucar. Domingo é feito para curar ressaca de todos os outros dias, enquanto a canção faz introdução, verso, estrofe, tudo ser refrão. Fás, sóis, lás, sétimas, sustenidos e bemóis se empinam e dão espaço para o povo soltar a voz. O dia não modula e o canto não cessa.

Gargalhadas em terça dão toque especial à composição. Barrigas se enchem, testas suam e braços sacolejam. Não há trabalho, regra ou metas a cumprir. Há apenas o assistir ao escurecer com piscadas lentas e passos embriagados.

Os mais chegados ficam para o jantar, esticam-se no sofá e até arriscam um cochilo. Solos descansam em suas respectivas notas alvo e o terreiro começa a esvaziar. A vizinha, que chamava por Jessé, já se aquietou e os bambas deixaram de tocar. A roda se desfaz, nota final soa como aplauso ao espetáculo que termina, pois que amanhã é de trabalhar.

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