segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A voz do Brasil

"Comemoremos" os trinta anos de morte de Elis Regina

Gabriela Passy

Elis. Confesso que esse nome e esta matéria ficaram entalados entre meus dedos e minha garganta por um bom tempo. Pensei em ser impessoal, pensei em ser pessoal, em me declarar, pensei em não fazer mais. Pensei em ser objetiva, em não ser, em voltar atrás, em continuar. “Faz logo essa matéria, menina!” é o que eu queria me dizer; mas de algum lugar eu ouvi: “Espera, uma hora vem”. Uma hora veio. Querer desesperadamente falar, sem saber como e acabar explodindo e escorrendo em palavras. É assim que vai ser.

(Foto: djzepedro.com.br)
É assim que vai ser, e não acho que poderia ser de qualquer forma diferente. Não para falar dela, que era e ainda é o maior exemplo de explosão de voz, sentimento e expressão; não seria possível que não me permitisse, humildemente, semelhante explosão.

Não creio que sejam necessárias muitas informações sobre quem foi ou deixou de ser Elis Regina. Gaúcha de Porto Alegre, cabelos castanhos, voz incrivelmente refinada, tão temperamental que acabou levando o apelido de Pimentinha. Casada, divorciada, casada novamente, mãe de três filhos, deixou o mundo aos 36 anos. Capaz de fazer o que bem entendesse com o seu instrumento, brincando, afinando, ritmando, aumentando e diminuindo como e quando fosse de seu desejo. A primeira a inscrever a própria voz como instrumento na Ordem dos Músicos do Brasil. Fosse ou não sua intenção, marcou época e uma geração inteira. Os filhos e netos dessa geração ainda se embebedam com as equilibristas, fecham o verão com as águas de março, brincam de roda, dão um alô aos marcianos, não querem ser como seus pais.

Foi de repente que me dei conta: eu nem tenho 30 anos. Como é possível que muitas das minhas – e tenho certeza que partilho esse “minhas” com muitas outras pessoas – canções preferidas tenham saído da boca dessa mulher que já seria uma senhora se não fosse falecida há quase o dobro da minha idade? Ao mesmo tempo, como é possível que se esqueça Elis Regina? Não, não é possível.

Foto: lounge.obviousmag.org
Acredito que desde sua morte se esteja esperando pela vinda de outra intérprete como ela. Diz-se que essa tal ainda não chegou. Não sendo ninguém para julgar a garganta alheia, só posso falar do que me agrada e do que não me agrada, sendo Elis enquadrada, com todos os méritos, no primeiro grupo. Posso dizer, ainda, que ela não será esquecida, não importa o que o futuro da música brasileira tenha a apresentar. Uma época não cobre a outra, e nenhuma outra cantora ocupará o espaço conquistado por Elis.

Escreveu Caetano Veloso no jornal O Globo – que por sinal dedicou quatro páginas da edição de 15 de janeiro deste ano à cantora -, que “quem entende de música no mundo todo sabe que Elis é uma das maiores que já houve”. Sou obrigada a discordar; quem “não entende nada” de musica também sabe disso.

Fica aqui a minha singela homenagem à voz que representa o Brasil todo. Deixo vocês com a apresentação emocionante de Como nossos pais, gravada em 1976.


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