segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Manguebeat: o conceito, a cidade, a cena

Carolina Ito

Para contar a história do Manguebeat no especial de hoje, é preciso voltar à década de 80, período de transição democrática e transformações que foram muito além da política.

Na música, o New Wave e a raiva punk invadem a cena. Os artistas consagrados da MPB já não atingem o público jovem como nas décadas anteriores e o som consumido por essa geração passa a ser, em grande parte, anglo-americano. A divisão entre música comercial, popular e erudita ganha novos contrastes, mesmo com os esforços tropicalistas dos anos 60 e discursos pseudo-globalizantes.

Um murmurinho começa a agitar os manguezais de Recife e, com a chegada dos anos 90, os “Caranguejos com Cérebro” chegam para questionar esse fosso da música brasileira. O avanço dos meios de comunicação permitiu que jovens da periferia, da classe média universitária e dos mocambos de Recife se organizassem no movimento que propunha um novo conceito de música pop.

A arte da lama

A simbiose de gêneros era a pedra filosofal do Manguebeat, que ganhou seu primeiro manifesto em 1994, intitulado Caranguejos com Cérebro. “A estética do mangue” era baseada no diálogo entre música gringa (rock, hip hop, funk) e música brasileira, especialmente ritmos regionais (maracatu, coco, ciranda e embolada).

Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A foram as bandas que lideraram o movimento. À frente estavam os alquimistas Chico Science e Fred Zero Quatro, que contavam com o apoio de jornalistas como Xico Sá, Renato Lins e José Teles (este último deu seu testemunho no livro Do Frevo ao Mangue Beat – saiba mais).

Depois de um período de estagnação, a música pernambucana ganha nova força e Recife passa a ser considerada polo musical. Vale lembrar que no início dos anos 90 uma pesquisa norte-americana apontou a cidade como uma das cinco piores do mundo para se viver. De exportadora da imagem de miséria e abandono, passa a ser exportadora de arte, saltando para “o grau mais alto da aptidão humana” – parafraseando o baiano Tom Zé.

Novo pop

Mesmo com a morte prematura de Chico Science, em 1997, seu legado se consolida nos dois discos gravados com a banda Nação Zumbi: Da Lama ao Caos (1994) e Afrociberdelia (1996). O primeiro contém o manifesto Manguebeat no encarte e está na 13ª posição na lista dos 100 melhores discos brasileiros, feita pela Rolling Stone Brasil. O segundo sugere uma junção psicodélica de ritmos africanos e elementos tecnológicos. Tudo isso com o humor crítico de Science e a presença unânime do rock, sob influência de bandas como Led Zeppelin e Pink Floyd.

A banda Mundo Livre S/A também lançou dois discos fundamentais nesse período: o Samba Esquema Noise (1994) e o Guentando a Ôia (1996), ambos com uma pegada mais samba-rock e referências de Jorge Ben. Desde então, a MLSA lançou mais seis discos e seu líder, Fred Zero Quatro, é um dos principais atores da discussão sobre inclusão digital e direitos autorais no Brasil.

“O som de CSNZ não era uma fusão: preservava-se a intensidade de cada gênero canibalizando sem que eles se diluíssem”, diz o pesquisador Idelber Avelar em um artigo sobre o Manguebeat. Durante essa viagem antropofágica, os mangueboys criaram a própria linguagem, estabelecendo uma troca orgânica entre o mangue e o mundo.

Chico Science & Nação Zumbi em O Cidadão do Mundo, do disco Afrociberdelia:


Terra Escura, sambinha psicodélico do Mundo Livre S/A:

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