terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Anos Dourados

Vanessa Souza

Cresci ouvindo a música dos anos 60 e o meu pai falando sobre como o movimento da Jovem Guarda foi incrível. Quem viveu na época e acompanhou os cantores, as bandas e os programas de TV, sempre tem um ar saudoso ao comentar sobre o momento em que o rock chegou ao Brasil e desbancou os artistas consolidados por seus pais e avós. O começo dessa história foi lá na Inglaterra, com Beatles e outras bandas – todo mundo já está cansado de saber disso.

Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo Carlos.
Foto: Divulgação

Aqui no Brasil, o começo do sucesso do rock nacional tem a ver com futebol (como quase tudo no país). Em 1965, a exibição dos jogos ao vivo tinha sido proibida e a TV Record tinha que achar algum programa para preencher sua programação. Uma agência de propagandas, então, apareceu com a idéia de colocar no ar um programa de auditório liderado pelos cantores Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, que já estavam chamando a atenção no meio musical há alguns anos. O nome foi escolhido a partir da frase “O futuro pertence à jovem guarda, porque a velha está ultrapassada” de Lenin, e, sem querer, o movimento musical que apareceria a seguir também estava batizado: Jovem Guarda.

Sucesso nacional. Em pouco tempo, o cabelo dos homens cresceu e as mulheres começaram a usar mini-saia, causando aversão aos mais velhos e recriando a moda. Os programas de auditório pipocaram na TV e vários artistas alcançaram a fama.

No entanto, diferentemente de hoje, não era uma tendência que os cantores escrevessem as músicas que interpretavam. Uma grande parte das paradas de sucessos era tomada por versões brasileiras de músicas dos Beatles e de outras bandas inglesas, assim como alguns compositores tinham várias canções de sua autoria fazendo sucesso ao mesmo tempo nas vozes de outros artistas. Mesmo assim, dois cantores se destacaram por compor e também interpretar: o rei Roberto Carlos e o tremendão Erasmo Carlos.


Em plena ditadura militar, o movimento não tinha cunho político. As letras das músicas falavam basicamente sobre o amor. O ritmo característico do rock da época era criado por guitarra e órgão elétrico em vez de violão e piano, como era comum nas músicas de outros estilos. Mesmo sendo sucesso entre o público jovem, a crítica – talvez por ser formada por outra faixa etária, dizem os amantes do movimento – não recebia muito bem o ‘iê-iê-iê’. Aliás, as músicas da Jovem Guarda foram apelidadas assim por causa de uma canção dos Beatles que dizia “She loves you, yeah, yeah, yeah”. Apropriado.

A audiência do programa precursor do movimento começou a cair no fim dos anos 60, sendo tirado do ar em 1969. O estilo conseguiu se arrastar até o início da década de 70, mas quase sem força. As mudanças que o movimento proporcionou, no entanto, permaneceram: as mulheres adotaram roupas mais curtas de uma vez por todas e a juventude passou a controlar as paradas de sucessos musicais e a programação da TV.

Além das mudanças no comportamento dos jovens, a Jovem Guarda também deixou uma sonoridade hoje considerada quase vintage de herança. Uma das bandas brasileiras do cenário atual a usar o iê-iê-iê como influência é a Garotas Suecas.


@vanessazsouza

Nenhum comentário:

Postar um comentário