terça-feira, 6 de dezembro de 2011

The Sound of Silence

Carolina Baldin Meira



Feche os olhos. Apague a luz. Escute o silêncio.

Ela se aproximou, como quem não queria nada. Quando me dei conta, se apoderou de mim. Sussurrei aos ouvidos de minha velha amiga: “como vai, escuridão?”. Não obtive resposta. As palavras pareciam ecoar em minha própria mente. Foi aí que percebi: não ouvi nada, mas senti. Mais profundo do que se possa imaginar. O som do silêncio.

E lá estávamos nós: companheiras de sonhos, de delírios. Contei-lhe meus piores temores e segredos. Compreensiva, a escuridão não me julgava, apenas escutava. E de repente eu revivia cada momento: caminhava sozinha e agitada sob a luz trêmula das lâmpadas, em uma rua de paralelepípedos.  Eu tinha um destino, mas parecia gostar devaneios e mudanças de rotas. Não sei ao certo se foi o frio ou a umidade que me fizeram erguer a gola do casaco. Acho que foi o medo.

Um flash de luz néon cortou a noite serena: o brilho chegava a cegar os olhos. Parei. Tentei seguir algum ruído, mas quem disse que seria possível? E, de novo, pairando no ar, lá está ele. Mais alto do que se possa imaginar. O som do silêncio.

Avistei um aglomerado de pessoas. Mil? Dez Mil? Talvez até mais. Debaixo do luar, claro e nu. Conversavam, mas não falavam uma palavra; ouviam, mas não escutavam; escreviam canções, mas jamais compartilhavam em vozes. Vazio. Quem ousaria desafiar o som do silêncio ou sequer perturbá-lo? 

“São todos um tolos”, eu disse. Precisam ouvir as palavras que tenho a falar, e segurar os braços que tenho a lhes estender. Não sabiam? O silêncio é como um tumor. Crescendo, sugando vocês. E minhas palavras, de nada adiantaram. Observei. Uma a uma, caindo como gotas silenciosas de chuva. Ecoando. Uma a uma. No poço do silêncio.

Novamente, as luzes de néon. As pessoas curvam-se e rezam a uma divindade que inventaram. Mas nada é mais forte do que as palavras. Uma faísca de sinal dizia: “As palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrô/ E nos corredores das casas”.  Mas o que nos rodeava? O que me foi sussurrado desde o início? Estava lá, mais intenso do que nunca. Fora e dentro de mim. Como uma daquelas músicas que tocam a alma. O som do silêncio.




“É por gostar de música que eu busco o silêncio”. (Laerte)



*Conto baseado na canção The Sound of Silence, de 1964, da dupla Simon & Garfunkel.

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