domingo, 11 de dezembro de 2011

Parceria de domingo

Amanda Lima

Tom Jobim e Vinicus de Moraes (Foto: Divulgação)
Beirando a sexta década de vida, grisalho, bigodudo e metido a intelectual, Norberto acordava religiosamente às seis e trinta da manhã de segunda a domingo. Tinha lá suas manias, mas procurava não se deixar levar pela vontade de afundar no sofá o dia todo, que aumentara nos últimos meses. 

Tinha saudades da loja de vinis em que trabalhava, do aspecto cru e único dos discos tocando nas vitrolas – um método para atrair a clientela. “Esses trecos novos não têm a mesma qualidade”, resmungou uma vez ao sobrinho, que ouvia um CD no rádio do carro. Para diminuir o aperto no peito, ele mantinha sempre algo no toca-discos impecavelmente conservado, apesar de ocupar a mesinha da sala há mais de trinta anos.

Aposentado, dedicava o seu tempo aos discos, ou então tentava arranhar alguma coisa no antigo violão. Mas a principal ocupação de Norberto eram encontros musicais aos domingos, depois do futebol. Por puro prazer, ele e mais três amigos iam a lugares que tocavam música brasileira, onde falavam sobre compositores, intérpretes e, é claro, o resultado das partidas. 

Naquele domingo, eles conheceriam o Bar da Bossa, no Bexiga. O tema era a obra de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O folheto do lugar, adquirido por Norberto em uma banca de jornal, dizia: 

“O 'poetinha vagabundo', como canta Chico Buarque, e o mestre Tom Jobim formavam uma das parcerias mais brilhantes da música brasileira. A dupla compôs canções eternizadas, como Garota de Ipanema – cantada até por Frank Sinatra –, além de Se Todos Fossem Iguais a Você, Insensatez e Chega de Saudade. Esta última é tida como a primeira canção da Bossa Nova, movimento que dá nome ao Bar da Bossa. Além do som ambiente cuidadosamente selecionado, conheça nossas instalações e experimente o melhor uísque da casa, em homenagem ao 'poetinha'. Relembre as maravilhas compostas por Tom e Vinicius.” 

Às quase sete da noite, o grupo chegou ao bar. Silvio, um dos integrantes, descontente com a derrota de seu time horas antes, resolveu partir logo para o assunto musical. “O Vinicius era um mestre, mesmo. Todo boêmio e conquistador. A lábia de poeta era tão boa que ele conseguiu se casar nove vezes. Se ele era tão bom com as palavras, imagino eu o que fez com que todos os casamentos dessem em separação”, disse e emendou uma risada, compartilhada pelos outros. 

Chico Buarque, Tom Jobim e Vinicius de Moraes
(Foto: Divulgação)
Um brinde, goles de uísque, comentários sobre as músicas que tocavam e muita risada. Era assim que Norberto gostava de passar os dias. “Sem dúvida, eles faziam uma dupla sem igual, mas o Vinicius fez muita parceria. Tem o Chico...”, não completou a frase porque foi interrompido por Adenor. “Lembra aquela foto dos três deitados? É a perfeita definição. A não ser pelo Tom, que é mais convencional, eu os vejo boêmios, mulherengos, beberrões e músicos sem igual.” Norberto concordou e retomou o rumo da conversa. “Não dá para esquecer também o Baden, o João Gilberto, o Toquinho. Que saudade de quando a música era esse enrosco entre os compositores...”, comentou Pedro, que, distraído, voltou-se finalmente para a mesa.

Quase à meia noite, já meio altos, os quatro deixaram o Bar da Bossa cheios de elogios embriagados ao gerente e risadas sem sentido. “O uísque é mesmo um sucesso, hein?”, disse Adenor, enrolando a língua. 

Cansado, Norberto chegou ao seu apartamento e, ainda sob o espírito da noite, colocou o vinil de Tom, Vinicius, Toquinho e Miúcha cantando no Canecão, em 1977. Acendeu um cigarro e sentou-se na cadeira de balanço. Enquanto ouvia Carta ao Tom, deu a última tragada e adormeceu, para acordar preguiçosamente em mais uma segunda-feira.

Carta Ao Tom/Carta Do Tom by Tom Jobim on Grooveshark

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