sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Apoteose do malandro

Amanda Lima

"O passo do malandro", por Lia Sanders
O malandro acordou tarde naquela quinta-feira. Vestiu as calças e o paletó brancos, a camisa listrada. Sem obrigações, deixou o pequeno quarto do albergue. “De sapato branco, glorioso”, partiu preguiçoso para a roda de samba. Boêmio, subiu as ladeiras da Lapa com sorriso no rosto, aparência impecável e ginga malemolente.

Assobiava um samba que dizia “não existe pecado do lado de baixo do Equador” enquanto apreciava a sempre tão cativa e tão sua Lapa. Chegou aos Arcos e, com a elegância habitual, adentrou o botequim de Seu Arnesto. “Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa uma boa média que não seja requentada, um pão bem quente com manteiga à beça, um guardanapo e um copo d'água bem gelado.” 

O malandro era dono de si. Seu sustento vinha de Contos do Vigário aplicados em ingênuos mineiros, da criminalidade sutil, dos bicheiros, da mais pura malandragem. Prostrava-se diante dele quem se sentia ameaçado. Esperto, conseguia sempre fazer com que Arnesto pendurasse as despesas. “Eu devo, não quero negar, mas te pagarei quando puder”, dizia. E, com infindáveis artimanhas, não tinha motivos para manter um trabalho regular. 

Saiu do bar, vadiou pelas ruas cariocas e, às cinco e pouco da tarde, com uma mulata nos braços, começou a entornar os primeiros goles. Não economizava palavras doces e romantismos àquela que protagonizaria sua noite de amor. “Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor.”

E eram domingos todos os dias da semana. Era ele quem ditava suas próprias leis. Sabia que não era honesto, segundo os padrões da sociedade. Mas também não era ladrão. Era malandro. A coisa mudou quando o velho mandou trabalhar. 

Outrora simpático, romântico e cavalheiro, o malandro era agora vadio e fazia arruaças. A roda de samba se entristeceu, por não mais haver tempo de sambar. Eram precisos cargos para o malandro naquele novo Estado. “Aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal. Dizem as más línguas que ele até trabalha, mora lá longe e chacoalha num trem da Central.”

E o 'malandro', cuja denominação o define e o adjetiva, sobrevive hoje na mesma Central do Brasil, onde os sambistas se reúnem, tocam e cantam em direção à Estação Oswaldo Cruz.


2 comentários:

  1. Puxa vida! Pensei que só eu ouvisse Wilson Batista nos meus solitários lp's!

    ResponderExcluir