segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A pérola do Rock 'n Roll

Julia Germano Travieso

Meio revoltado e definitivamente entediado, andava pelos corredores da escola que, dez anos antes, havia sido o inferno de uma das maiores representantes do rock 'n roll dos anos 60, a Janis Joplin. Eu sabia que a cobertura do evento era importante, mas esse negócio de coletiva de imprensa não era comigo, meu lance mesmo eram as entrevistas particulares, mas quem não obedece o chefe é mandado embora, e ser demitido era a última coisa de que eu precisava naquele momento. 

Levei um susto da porra quando ouvi uma voz vinda de nenhum lugar muito definido dizendo: “Olha, se você não quiser, não precisa entrar por aquela porta.”. Fui bisbilhotar no banheiro feminino, que parecia estar um pouco agitado demais para o meu gosto, e vi John Cooke, um dos rodies da Full Tilt Boogie Band tranquilizando uma perua cheia de joias. 

Demorei um certo tempo para perceber que aquela era, na realidade, a própria Janis. Totalmente insegura e cercada por amigos e família, ela se preparava para enfrentar algo que parecia ser um monstro. Mais tarde eu descobriria que este era seu próprio complexo de inferioridade e que tinha sofrido por ser diferente das outras crianças. O ensino médio foi uma intensificação desse processo e gerou uma ferida que nunca se cicatrizou por completo. Durante a coletiva ela até comentou que só entretinha os outros alunos quando andava pelos corredores. 

Janis Joplin no Woodstock
Terminada a minha obrigação, resolvi me embrenhar por uns caminhos secretos ali da escola para tentar fugir daquele monte de fotógrafo besta que só quer saber de tirar foto de capa. Quando estava quase chegando na rua, me deparei com uma pessoa que fazia o mesmo que eu. Cheguei mais perto e descobri que aquela era a Janis, sem todas as joias, mais parecida com a artista que eu admirava. Tentei pensar em mil coisas pra falar, mas elas todas pareciam idiotices absurdas e eu resolvi chegar na cara dura falando que queria conversar, quem sabe fazer uma entrevista exclusiva. 

“Mas é lógico, eu estava mesmo precisando de um ar. A gente pode ir a um barzinho ali na próxima esquina, minha irmã está lá me esperando com o resto do pessoal.”. Nessa hora não sabia o que falar nem o que fazer, me senti um adolescente de 15 anos apaixonado. Fui seguindo ela, completamente sem ação, quase babando. No caminho, ela foi falando comigo, perguntando quem eu era, me tratando como um ser humano normal e eu consegui me recompor para responder que era repórter e havia sido escalado para cobrir a reunião lá, mas estava de saco cheio daquilo tudo e estava prestes a mandar a matéria para o espaço. 

Ela riu. 

Nós entramos no bar. 

O pessoal lá ficou animado em me ver, parecia que esperavam minha presença então sentei em meio a eles e pedi um drink. Fiquei horas conversando, esqueci de anotar, de fazer as perguntas que pretendia, senti como se estivesse sentado com meus amigos em um boteco qualquer. Mais para o fim da noite, depois de muita cerveja, eu estava meio louco, as coisas não estavam fazendo sentido, mas tenho quase certeza de que as palavras “No fim do mês vou começar os ensaios e gravações para meu novo álbum, pode aparecer lá quando quiser.” foram reais. 

Acordei no dia seguinte meio zonzo, o dia anterior estava bagunçado, embaçado, eu não tinha certeza de onde estava. Abri a janela de um quarto de hotel e me descobri em Port Arthur, lembrei de Janis e das gravações, precisava me preparar. 

As próximas semanas foram loucas, conversas com o editor da revista, preparativos pra viajar, reuniões e mais reuniões para liberação de verba. Quando dei por mim, já estava em Los Angeles, na porta do Sunset Sound Studios, sendo recebido pela banda como um membro da família. 

Do fim de agosto até o comecinho de outubro não dormi direito, não comi direito, passávamos de oito a dez horas no estúdio. A atmosfera era muito animada, aquele pessoal parecia viver da música, nada tirava a concentração deles. Janis estava em êxtase, foi uma honra para mim ver a transformação que acontecia quando ela cantava. Aquela mulherzinha frágil derrubava suas próprias barreiras e tornava-se uma leoa, atacando a todos com uma voz que parecia vir de outro planeta. 

Em um desses dias eu havia dormido demais, acordei às cinco da tarde e corri para o estúdio. Já era a segunda vez que isso acontecia, não podia ficar perdendo essas sessões à toa. Consegui chegar só às seis e a Janis ainda não estava lá. Mesmo que alguns atrasos fossem normais e eles imaginassem que se dariam pois ela estaria comprando uma calça jeans ou fazendo alguma outra coisa de mulher, o produtor Paul Rotshchild teve uma sensação estranha e mandou Cooke atrás dela. 

E o resto da história vocês já conhecem... 

Janis Joplin morreu de overdose em seu quarto no Landmark Motor Hotel em 4 de outubro de 1970 e, congelada no ápice de seu sucesso, deixou para o mundo seu maior legado, o álbum Pearl, lançado postumamente, com as faixas gravadas nos últimos meses. Buried Alive In The Blues deveria ser gravada no dia seguinte e entrou no disco como uma instrumental.

6 comentários:

  1. Nossa, mitando mais uma vez, hein, Choppinha?
    Parabéns pelo post sensacional. (:

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  2. Que merda....ORRA, zuera!

    Agora sério...FICOU ANIMAL...Parabéns msm Chopp, qndo li a frase "E o resto da história vocês já conhecem...", depois de ler todo esse texto, até arrepiei...

    MITOU!

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  3. Diria que a insensatez talentosa Jopliniana aliada ao talento insano e característico de Julia compõe um belo texto. Parabéns, de verdade!!! Conhecimento musical e literatura... Bela composição!!!

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  4. Fabio, tem que procurar por ai, o pessoal faz umas coisas bem legais. Tem um outro meu que parece um pouquinho com esse sobre o Rock in Rio: http://playthisbeat.blogspot.com/2011/09/relatos-de-um-jovem-jornalista.html

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