quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Ousadia, bom humor, e um bom e velho charuto cubano

Uma entrevista com Fernando Morais: grande jornalista e rei das biografias

Marina Rosanese

Meu post de hoje não é sobre música. É sobre o Jornalismo nas palavras de um dos maiores nomes desta área. O Jornalismo por Fernando Morais.

"Marina? É o nome da minha mulher". Foi a primeira frase que Fernando dirigiu a mim de maneira extremamente receptiva. Confesso que me ajudou muito, considerando o nervosismo que eu estava por falar com alguém que tanto fez pela cultura nacional como jornalista e como um dos maiores biografistas brasileiros. 
Fernando conversa com os presentes no Congresso
Brasileiro de Escritores.
Cheguei ao Congresso Brasileiro de Escritores com uma hora de antecedência e decidida a entrevistar o autor de Chatô, o Rei do Brasil. Pensava em milhões de perguntas que poderia fazer a ele, mas poucas me pareciam interessantes. Todas me pareciam insignificantes e eu estava muito nervosa até ver, a menos de dois metros de mim, a figura de Fernando. Nos primeiros cinco minutos da mesa redonda, ele acendeu um de seus famosos charutos como que se estivesse em uma reunião entre amigos. De fato, era isso que representava o Congresso. Uma reunião entre amigos da literatura brasileira. 

Fiquei bem mais tranquila em conversar com ele. Perguntei a Fernando como ele vê o papel da imprensa atual no processo democrático. "Não é muito bom, não", respondeu. No entanto, Fernando acredita que a existência da internet impede um maior desserviço da imprensa perante as conquistas democráticas. "Os grandes veículos da imprensa, com as exceções de praxe, viraram partidos políticos de direita sem se assumir. Porque se assumissem, estava bom", afirma Morais. Ele ainda diz que é muito pessimista em relação aos veículos de imprensa e, inclusive, em relação a alguns em que ele já trabalhou e que muito fizeram para o Brasil.

Também conversamos sobre a não obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão e suas possíveis consequências. Sobre isso, Fernando Morais afirma que, embora ele não tenha o diploma, alguma formação é importante. Humildemente, o autor ainda acredita que seria um jornalista mais competente se possuísse uma formação superior. "Fiz um ano de Sociologia. Larguei porque eu já era profissional, estava casado, mas talvez o ideal seja que as pessoas, pra exercer a profissão, tenham pelo menos uma especialização". 

Fernando também teme que a não exigência do diploma permita que o mercado seja ocupado pelos "apadrinhados, pelos genros, as noras, as namoradas dos donos" e que isso gere uma queda na qualidade da produção jornalística. Segundo ele, a obrigatoriedade do diploma e a regulamentação da profissão não significariam o fim da liberdade de expressão àqueles que não possuem o diploma. "Ainda mais agora com a internet. A internet desmente isso". 

Fernando atento aos comentários de outros escritores.
Por fim, perguntei a Fernando sobre sua ideia de escrever a biografia de Assis Chateaubriand, um dos maiores nomes do Jornalismo e da imprensa brasileira. "Eu só tinha visto o Chateaubriand uma vez na minha vida, e ele morto. Eu fui cobrir o enterro dele para o Jornal da Tarde, em 1968, e não poderia imaginar que, trinta anos depois, eu fosse desenterrar aquele 'defuntinho pequenininho' e colocar ele pra andar de novo", afirma. Fernando Morais diz que foram dois os motivos que o seduziram a fazer a biografia de Chatô. O primeiro foi o fato de Fernando ter passado a infância e parte da adolescência em Belo Horizonte, que era dominada pelos Diários Associados, o conglomerado de empresas midiáticas fundado por Chatô. "Eu lia artigos do Chateaubriand quase todos os dias. (...) Então aquilo deve ter me despertado algum tipo de curiosidade". 

A segunda razão que o motivou a escrever sobre a vida de Chatô é o fato de que o estúdio onde o autor trabalha, em São Paulo, fica em uma travessinha da Avenida Paulista, de onde ele costumava ir pra casa almoçar a pé ou de moto e passava na porta do MASP (Museu de Arte de São Paulo). Quando ele ia a pé, entrava no MASP e indagava sobre o estranho sujeito que montou um dos maiores museus do hemisfério sul e não deixou pra família. "Deixou pra sociedade. O museu é seu, é meu. Isso certamente ajudou a me seduzir. Mas eu não podia imaginar que fosse um bicho tão espantoso quanto de fato foi o velho Chatô", conclui Fernando.

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