domingo, 27 de novembro de 2011

Música acidental

Amanda Lima

“Carrego para onde for o peso do meu som lotando minha bagagem.” Saí de casa ontem pela manhã com a esperança de encontrar algo que me rendesse um texto. Caminhando pelo Centro Velho da capital paulistana, onde tantas situações inusitadas permeiam a multidão, olhava ao redor procurando qualquer coisa me que remetesse ao meu objetivo inicial: música. De todo e qualquer gênero, família ou espécie.

Mercado Municipal (Foto: Amanda Melo)
Chegar a essa região de São Paulo significa inundar-se em um ambiente de cores, produtos de todas as espécies, réplicas de tudo que se possa imaginar, pessoas – durante esta época do ano, muitas delas  e sons. Passos, falatórios, sacolas imensas cheias de compras natalinas, maridos impacientes e apressados, esposas incansáveis, estátuas vivas, vendedores pelas calçadas oferecendo desde “aparador para pelos de nariz e ouvido” até produtos eletrônicos, sotaques. “Traz as cabrochas e a roda de samba. Dança teu funk, rock, forró, pagode, reggae. Teu hip-hop. Fala na língua do rap.” Sons. Ainda sem perceber que a pauta gritava ao meu ouvido o tempo todo, cheguei ao Mercado Municipal.

“Sobre o que posso escrever?”. Só quem já foi ao Mercadão em horário de almoço sabe o que é usar de artifícios esquisitos para conseguir uma mesa. As pessoas conversam sobre tudo e nada, riem, fofocam e comem. Muito. A missão é olhar discretamente para as mesas, calcular quantas mordidas ainda restam e estipular qual é a que estará livre mais rapidamente. Eu realizava essa tarefa sentindo o cheiro agradável de todas aquelas delícias. Meu estômago roncou.

Preocupada com o dia que passava e a pauta que não vinha, parei no meio das mesas e me desviei dos cálculos. Foi quando um homem parou ao meu lado. “De quantos lugares você precisa?”, perguntou. “Três”, respondi com atraso de também três segundos. Encontrar gentilezas em uma cidade às vezes tão impessoal é algo muito bonito.

Depois de comer, desci do mezanino onde pasteis de bacalhau e sanduíches de mortadela são servidos aos montes e andei pelas mercadorias. Some tudo o que existe pelas ruas a uma infinidade de cheiros, sabores, “cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores.”

Os ‘barulhos’ da cidade, assim chamados depreciativamente pela grande maioria das pessoas, me fizeram constatar: dificilmente todos esses produtores de sons incidentais saibam que compõem as músicas sobre as quais agora escrevo. A musicalidade dos sotaques de todos os cantos do país, a voz eloquente dos vendedores, o canto da multidão, comida na chapa, latinhas de cerveja se abrindo, carros, buzinas, espirros e uma chuva dessas de verão, que caiu de repente.

Por acidente, naquela imensidão de sons vindos de todas as fontes possíveis, percebi música. A loucura metropolitana, a mistura de regionalismos, os costumes e a pressa de uma cidade que não para. Orquestra dos asfaltos, do cimento e do horizonte poluído. “E o tal ditado, como é? Festa acabada, músicos a pé.”

@mandiml

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