terça-feira, 22 de novembro de 2011

A mulher música

Carolina Rodrigues

Era um dia chuvoso e cinza. Sabe aqueles em que você não tem vontade de fazer nada, nem de comer, nem de brincar, nem de ver filmes, nem de ler livros, nem de tomar banho, nem de dormir e nem de ficar à toa? As gotas escorriam pela janela e faziam barulhos que me prendiam a atenção. Hipnotizável... 

Eu era uma criança, mas já estava cansada daquela vida de sol = pique-pega e chuva = vídeo game. Eu tinha todos os sentidos aperfeiçoados, exceto um: a audição. Coisa de criança mesmo, né? 

A fala era algo que se destacava em mim desde aquela época. Estava sempre falando alto durante as brincadeiras, durante as brigas com meu irmão, durante os telefonemas com minha avó distante, durante tudo. Sempre queria ser escutada e ponto final. 

O tato mostrava toda a minha curiosidade de sentir o novo. O lápis de cor, o papel, a água gelada da mangueira e até mesmo o áspero chão no meu joelho em meio aos tombos. Tudo me mostrando o que é, de fato, sentir na pele. 

A visão captava cada movimento, cada cor, cada ato. Tudo se passava como nos filmes. Eu via os carros, os pássaros, o meu eu refletido no espelho. Logo, logo comecei a ver aquilo que ninguém quer ver, sabe? Aquilo que está por trás de qualquer imagem. Foi irreversível. Nem tudo são flores; com o tempo vemos os espinhos. 

O olfato estava presente a todo momento. Mesmo quieta, deitadinha, de olhos e boca fechados, sentia os cheiros vindos de todo e qualquer lugar. Desde o bolo ao final da tarde até o caminhão de lixo. Não tinha como evitar, aquilo vinha com uma corrente de ar qualquer e permanecia no meu nariz mesmo tampando-o por muito tempo. 

Mas e a audição? Sei lá. Nunca queria escutar e ponto final. Todos os sermões e chatices que as pessoas grandes tentavam falar comigo eram em vão. Só tinha ouvidos para aquilo que me interessava. Coisa de criança. Até que escutei o tal barulho das gotas que escorriam pela janela em um dia que nada me interessava. Gotas que poderiam ser insignificantes... Fiquei de fato hipnotizada. Havia uma sincronia naquilo que parecia, mesmo, “música para meus ouvidos” – expressão que adquiri da minha babá anos depois, pois ela sempre dizia: “eu gosto tanto de você, que até seu choro parece música para meus ouvidos!”.

A verdade é que eu mal sabia o que era música, uma vez ou outra escutava um cara cantando no toca discos da minha mãe – cara que eu descobriria mais tarde ser Chico Buarque. Hoje, depois de muitos anos e já com alguns cabelos brancos, vejo que naquele dia, chuvoso, cinzento, chato, calmo até demais, e todos os outros adjetivos depreciativos, eu descobri o que é MÚSICA. 

Assim que a chuva parou, procurei por toda a casa aquilo que já sabia ser um violão. Simplesmente relacionei o barulho das gotas com o barulho das cordas, e aquele sentimento único que a música traz reinou em mim. Por fim, achei o violão no fundo da garagem, todo empoeirado e desafinado. Inventei acordes, inventei ritmos, inventei melodias e letras de uma maneira tão simples... Fiz a minha música*. E a partir de então, criei a trilha sonora da vida que é só minha. Mais do que adoradora, mais do que apaixonada, mais do que dependente. Sou mesmo como... como... a... a música em pessoa.

* Adriana Calcanhotto, com Minha Música:


Esse post é uma homenagem a todos os músicos e a todas as musicistas. Hoje, 22 de novembro, é o dia de vocês. Parabéns!

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