sábado, 19 de novembro de 2011

Como uma trova

Carolina Ito

Ele chega da rua e liga o som, como de costume. Acende um cigarro e dá um longo trago e depois outro... O dia foi difícil.

"minha cabeça trovoa
sob meu peito te trovo
e me ajoelho
destino canções pros teus olhos vermelhos"

A música que saía do seu aparelho de som era desconhecida. Poderia ser de um disco emprestado por alguém, talvez, mas sua memória não andava tão mal assim. Aliás, a memória era o que parecia funcionar melhor entre as atividades do cérebro... E do corpo também. Ele já não dormia direito e levantava da cama para ir trabalhar com um sentimento de que isso era fatidicamente inútil. Sentia um cansaço profundo. Mas a memória funcionava a todo vapor, como uma máquina de Tempos Modernos.

Decidiu ouvir a música até o fim.

"me entrego, ofereço
reverencio a tua beleza
física também
mas não só
não só"

O arsenal de lembranças revela um momento supostamente perdido. Ele captura a cena de uma festa qualquer, numa noite qualquer, em que ela parecia rebater o jogo de luzes que dançavam pela pista. Parada em meio àquela profusão de cores, ela era etérea, serena e incrivelmente assustadora. Ele não conseguia tirar os olhos daquela mulher que, a qualquer momento, poderia transformá-lo em pedra.

"seja meiga, seja objetiva
seja faca na manteiga
pressinto como você chega
ligeira
vasculhando a minha tralha
bagunçando a minha cabeça"

A música parece completar o pensamento. Esse é o triunfo e o infortúnio dos amantes. Se ela não tivesse que ir embora... Ele não teria que interromper aquele momento de entrega e desejo sem ressalvas - aquilo que muitos chamam de amor “incondicional”.

"vou sossegado e assobio
e é porque eu confio
em teu carinho
mesmo que ele venha num tapa"

Ao lado do cinzeiro ele nota um papel meio molhado pela chuva, com figuras em preto e branco. É o encarte do disco que ele ouve sem saber de onde veio. Nessa hora, seu lado místico (que acabara de inventar) fantasia que ela havia deixado o cd no aparelho de som, com o gatilho apontado para a faixa número 4: Trovoa.

Trêmulo e com os olhos aflitos, ele acende outro cigarro.

"eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e como você
eu sei
quer dizer
eu acho que sei…"



A música que inspirou esse conto é uma "canção de amor que Waldick Soriano poderia ter feito" mas que foi feita por Maurício Pereira (ex-integrante da mini-banda Os Mulheres Negras). A música Trovoa pertence ao disco solo Pra Marte, lançado em 2007. 




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