segunda-feira, 31 de outubro de 2011

E agora, você?

Carolina Baldin Meira

Um piscar de olhos e a festa acabou. Por onde é a saída mesmo? Já está tudo escuro e o ambiente é vazio. Ou vazio é você? E ainda tem o frio da noite... Ou seria o gelo no seu coração?

Sabe, as coisas nem sempre foram assim. Um dia você teve nome, um dia você teve mulher, um dia você foi maior. Riu da cara dos outros. Agora você é o outro. Mais um em meio à multidão. Engolindo indiferença.

Cadê o discurso de belas palavras, as frases prontas, os protestos? Por onde anda o amor? Foi a solidão quem lhe tirou o carinho e o arrastou com ela ao porão da tristeza, não foi?

Proibido: fumar, beber, cuspir. Quando foi que os direitos lhe escaparam por entre os dedos, imperceptíveis? Os direitos e os impulsos. Guarde a carência no bolso, é a única coisa que lhe restou.

E o frio mais uma vez. Deve ser porque o dia não amanheceu. Por que diabos o sol foge de você? E o bonde também? As risadas costumavam ser boas... A utopia lhe mandou lembranças! Fuga e nostalgia andam de mãos dadas. Mofo. Acabou. E agora?

Recordações parecem doer mais do que o próprio ódio. Instantes de delírio, jejum, e gula. O terno de vidro, a biblioteca, o ouro da lavra: riqueza e revolta. A incoerência ganhou a batalha. Abaixo dela, os fragmentos de memórias destruídas soltam os últimos suspiros.

A vida não lhe dá mais ouvidos: você tem a chave, mas não tem a porta; você deseja Minas, mas as minas se esgotaram; a morte lhe chama do mar, mas a água secou. E agora?

E se você chorasse? Gritasse, gemesse, tocasse a valsa, dormisse, cansasse, morresse... “Se”. Termo tão imperfeito quanto o ser humano. Não, a morte não resolverá seus problemas.

E aí está você: sozinho, bicho-do-mato, arredio, sem teologia, parede e sequer chão. Tentará fugir com o seu cavalo preto a galopes? Cadê sua reação? Você anda. A liberdade é inexistente. Não, pensando bem, você não anda. Você marcha. E agora, você? Para onde vai você? Para onde vamos nós?
(Foto: redes.moderna.com.br)
 *Texto em homenagem aos 109 anos de nascimento do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (31/10/1902 - 17/08/1987). Baseado no poema "E agora, José?".



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